Somos dois desmemoriados, ela não lembra se já ouviu e eu não lembro se já contei.
E Então Se Fez o Silêncio...
- Quem procuras não está - respondeu. - Mas como aqui é a casa dos que não estão, pode entrar.
Sexta-feira, 16 de Maio de 2008
Sábado, 10 de Maio de 2008
Pequenas Insanidades
Eu tenho uma coleção de coisas legais. Nela, tenho desde bolinhas de gude até cápsulas de bala, passando por facas de arremesso, um time de botão, bolas de malabarismo e até uma máscara de oxigênio. Minha coleção costuma melhorar meu humor, mas nunca abro a gaveta onde a guardo para observá-la. Meu quarto tinha um relógio de parede que é um disco de vinil, mas ele quebrou e não está mais lá. Qualquer um que entre no meu quarto, e veja meus certificados de Krav Magá, enquadrados e pregados na minha meia parede verde, deve achar que sou um assassino frio e calculista, e mal pode imaginar que não passo de um coração-mole. As pessoas, aliás, costumam me interpretar mal.
Já li muito, mas queria ter lido muito mais. Escrevi pouco, mas também queria ter escrito mais. Existem vários adjetivos que me definem bem, mas talvez o melhor seja "incompleto"; não quero explicar o porquê aqui.
Céu azul é bonito, mas só é bom com o tempo frio, se bem que eu também gosto de nuvens. Dizem que quem gosta de olhar para as nuvens é muito sonhador, e eu, de fato, sou; mas ao mesmo tempo, sou muito racional. Eu sei, isso é ambíguo; eu sou assim mesmo, quase esquizofrênico. O pior é que, em geral, não importa qual seja o que procuram em mim, ele nunca está.
Muitas vezes escrevo textos inteiros apenas para disfarçar as duas ou três frases soltas que são o que eu realmente queria dizer de início.
Escrito por
Rômulo
às
15:54
2
comentários
Segunda-feira, 5 de Maio de 2008
Elitismo
Minha língua sou eu; ou será, no mínimo, um complemento de mim; minha especial forma de estar no mundo e o local onde me percebo como um homem. Talvez seja o único ponto de ligação entre os tão diferentes que residem em mim.
Peço licença para transcrever uma fala de Ferreira Gullar, que mostra com exatidão o que sinto em relação à língua portuguesa: "Em outras linguagens sou quase eu mas ainda sou outro, (...) nas palavras, melhor me decifro e quase me entendo. Sem a língua portuguesa, minha fala, não me traduzo a ponto de me reconhecer. Sou mais próximo de mim e dos outros na língua que falo.".
Vejo-me obrigado a concordar integralmente, não só com o que diz Ferreira Gullar, mas também com Fernando Pessoa, que em seu escrito entitulado "Minha pátria é a língua portuguesa", diz que sente uma espécie de ódio pelos que escrevem mal. Honestamente, me sinto muito mais próximo dos portugueses ou dos angolanos, ainda que do outro lado do oceano, do que dos tantos vizinhos brasileiros que mal sabem escrever, como se estrangeiros fossem.
Talvez minha perspectiva possa parecer um pouco elitista, mas fico muito feliz de que o acordo ortográfico da língua portuguesa tenha sido assinado. Servirá então, para aproximar os irmãos de pátria, lusófonos, unidos pela língua portuguesa.
A minha nação.
Escrito por
Rômulo
às
00:35
1 comentários
Domingo, 4 de Maio de 2008
O Pirata da Perna-de-Pau
I wish I were smaller
Because I'm too tall
I'll build wooden legs
Or I shall fall.
Escrito por
Rômulo
às
11:26
1 comentários
Sábado, 19 de Abril de 2008
Meme
Certo, em primeiro lugar acho que devo agradecer a dona do Infinito Público, Jana Cambuí, pela aula a respeito do que é um meme, e também pela idéia de transformar minhas prestações de contas em um.
Espero estar fazendo da forma certa, e as regras serão as seguintes:
- Recebendo o meme de alguém, você escolhe um, dois, ou três posts (ou quantos preferir), e cria um outro explicando os motivos pelos quais resolveu escrever os escolhidos.
- Obviamente, depois você deve escolher alguns blogs para repassar a idéia.
- Bem, não chega a ser uma obrigação, mas seria de bom grado colocar o link do Silêncio Coletivo no post, já que isso provavelmente aumentaria minhas visitas, e quem sabe até os comentários; e também caso alguém queira rever as complicadíssimas regras.
Vou começar passando a idéia para o Infinito Público e para o Outro Blog da Mary, ambos com link nos favoritos aqui ao lado.
Escrito por
Rômulo
às
12:09
1 comentários
Sábado, 5 de Abril de 2008
Prestação de Contas - I
Bem, eu pelo menos sempre gostei de me enveredar pelos labirintos mentais que levam alguém a escrever sobre algo. Reparei também que sempre que escrevo um texto, tento explicitar os motivos pelos quais me senti impelido a escrever, mas acabo não o fazendo.
Se este será mera informação, se possibilitará uma releitura mais aprofundada ou se irá desconstruir totalmente minhas idéias, espero que alguém me responda. De qualquer forma, pretendo fazer dessa idéia uma rotina, prestando contas de minhas inspirações de tempos em tempos.
Avisos - Nunca se sabe, tentei escrever um aviso no meu quarto para os pernilongos e formigas que vinham me importunando. Por alguns dias eu cheguei a realmente acreditar que tinha dado certo, o que obviamente, não se manteve por muito tempo.
À la Mendes Campos - Li a crônica de Paulo Mendes Campos, intitulada "Coisas Abomináveis", na qual ele faz uma lista de todas as coisas abomináveis existentes, e logo após, uma outra das coisas deleitáveis. O último item da segunda era "fazer a própria lista de coisas deleitáveis". Decidi seguir o conselho à risca, e fiz a minha própria.
Eis a Questão - Não, eu não estava com uma grande dúvida. Não sei por que cargas d'água, simplesmente gosto muito da frase.
A Estranha Perfeita - No auge do tormento causado pela menina portuguesa, decidi escrever mais diretamente sobre ela. Tirei uma tonelada dos ombros ao escrevê-lo.
A Moça - Minha primeira ficção, livremente inspirada, é claro, nela.
De Saramago para Niemeyer - Encontrei no jornal uma reprodução da carta que José Saramago, meu autor predileto, escreveu para Oscar Niemeyer, parabenizando-o pelos cem anos. Não consigo imaginar um presente melhor, por isso resolvi transcrevê-la integralmente.
Dentes - Sim, minha cadela me mordeu de verdade. Não, minha mão não ficou dilacerada. Sim, eu realmente fui o responsável pelo primeiro e único orgasmo da vida dela.
Guerras Particulares - Resolvi escrever sobre este tema ao acompanhar nos jornais as notícias sobre a guerra separatista no Chade. A idéia foi tentar alimentar um pouco meu lado militarista, mas acho que não obtive muito sucesso.
Desatino - Ah, sempre me achei meio louco. Daí a escrever sobre a própria loucura foi um passo.
L'Enfer - Finalmente, o texto que enterrou os restos da menina portuguesa. Onde enterrei, não faço idéia, só sei que foi fora de mim.
Escrito por
Rômulo
às
18:44
2
comentários
Sábado, 29 de Março de 2008
L'Enfer
Ela possuía uma elegância altiva e graciosa, que incidia ora nos olhos maliciosos, ora no sorriso provocador. Os cabelos castanho-claro se soltavam irregularmente pela cabeça, revelando exatamente as partes certas do rosto tremeluzente.
A despeito do semblante zombeteiro, conversava de forma acanhada, pronunciando cuidadosamente cada palavra, como se duvidasse que a delicadeza lusa do falar pudesse desconcentrar o ouvinte.
O riso inocente e sincero vinha sem aviso, como se, timidamente, explodisse, revelando todo o poder incontido.
Os encantos do rosto se enveredavam pelo corpo perfeito; pelas promessas que as sinuosidades, que os seios fartos acenavam, de prazer desmedido e irrestrito, onipotente. As pernas longas e grossas se movimentavam exalando uma elegância inerente às corças, em uma espécie de aura petrificante, estarrecedora.
Não consigo equiparar a sensação que era fazê-la rir, segurar suas mãos frágeis ou ouvir sua voz doce, emoldurada pelo sorriso aberto.
Algum dia, e espero que em breve, outra haverá de tomar seu lugar de musa, de inspiração.
Escrito por
Rômulo
às
02:16
2
comentários
Sábado, 22 de Março de 2008
Desatino
Hospícios abrigam loucos, é claro - qualquer um diria - Aquele em particular, entretanto, abrigava reis. Majestades de mundos particulares, confortavelmente entorpecidos e entretidos com suas realidades manipuladas.
Era uma casa especial, onde cada quarto se transformava em um palácio, banquetes imensos cabiam em um pequeno prato e as maiores festas se davam em total silêncio. Não havia lugar que fosse ao mesmo tempo mais feliz e mais triste do que aquele.
Partamos do pressuposto de que este que vos escreve é também habitante do local, pois os ecos que existem dentro dos gigantescos muros não chegam ao lado exterior, e não haveria assim qualquer outra forma de escrever sobre este assunto.
Flutuando num eterno limiar, o insano faz um caminho contrário ao da sociedade. Enquanto as pessoas vivem em uma contínua contenção de sentimentos, o louco tem suas debilidades explicitadas, o que não deixa de ser, na verdade, uma perspectiva libertadora.
Talvez sejam apenas mais clarividentes do que nós , e por isso desistem de tentar viver na loucura do mundo normal.
Os piores fantasmas são os que assombram os loucos.
São assustadoramente reais.
Escrito por
Rômulo
às
23:50
2
comentários
Domingo, 9 de Março de 2008
Elas Têm Sempre Razão
Era uma vez um homem, um homem ainda jovem. Ele não era bonito como esses modelos fotográficos, mas tinha lá suas graças. Conseguia manter uma boa forma física, contudo, seu corpo também não chegava a ser um primor. Reservado, não era dado a extravagâncias e aparentava ser mais velho do que realmente era. É claro que, como qualquer um, as vezes ansiava por alguns desatinos, mas ninguém compreendia isso.
Indo direto ao ponto, o coitado não servia para entreter mulheres que só pretendiam se divertir, ou ao menos servia, só que ninguém percebia.
Ao mesmo tempo em que não queria fingir ser algo que não era, também não obtinha o que desejava. Essa era sua sina.
Talvez um dia, na idade em que começamos a pensar em compromissos mais sérios, venha a receber o devido valor, quem sabe até por algumas das que alguns anos antes só queriam se divertir. Lá, ele provavelmente irá querer aproveitar a tão esperada oportunidade e irá apenas se distrair.
E assim as mulheres passam a ter razão. Se os homens não são todos iguais, um dia passam a ser.
Escrito por
Rômulo
às
11:52
3
comentários
Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008
Guerras Particulares - III
Dezenove de janeiro.
Tudo está perdido. Há dias que não conseguimos nenhum tipo de vitória. Nossas últimas linhas de tanques fracassaram e estamos defendendo o palácio presidencial. Temos pouco mais de 30 homens, e um tanque barricado na entrada principal.
Não sabemos quando virá o ataque final, não sabemos se sobreviveremos a ele. A única certeza que temos é a de que lutaremos até a última bala.
Eu gostaria que um dia meu filho pudesse ler meu diário, ler minhas últimas palavras, para que assim soubesse que o pai caiu, mas de forma honrada, lutando por algo em que acreditava.
Gostaria de continuar, mas devo parar de escrever agora, é chegada a hora da batalha...
Escrito por
Rômulo
às
22:16
2
comentários
Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008
Guerras Particulares - II
Quatorze de janeiro.
A cidade está partida. Os homens leais ao presidente já não passam de três mil, e dezenas morrem a cada hora. Os corpos espalhados pelas ruas já se amontoam, e criam uma cena de horror que faz Ruanda parecer uma história infantil. Perdemos algumas quadras e algumas de nossas linhas de tanques já foram desmanteladas. Em breve estaremos defendendo o palácio presidencial.
Seguindo ordens ou não, batalhar pela própria vida altera qualquer perspectiva. Fica muito simples ser cruel. Eu que temia tanto tirar a vida de alguém, hoje faço com a mesma facilidade com a qual respiro. Acredito que a iminência de receber um tiro na cabeça coloque minha moral em segundo plano.
Todas as dúvidas que eu tinha a respeito da minha paternidade se dissiparam frente à possibilidade de morrer.
Escrito por
Rômulo
às
00:44
0
comentários
Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008
Invariabilidade
Vão antecipados estes trechos:
Já têm sua deusa coroada. - Leandro Diaz (ou seria Garcia-Marquez?)
Das vezes em que tento escrever algo que foge do tema "a menina portuguesa", quase que invariavelmente a qualidade do texto me desagrada, e acabo por não publicar. Reparei que boa parte de meus escritos se dedicam a ela, com direito até a uma ficção livremente inspirada. Percebo-me gostando cada vez mais de escrever, mas gosto ainda mais de escrever sobre ela.
Eu até poderia desenvolver melhor, mas vou parar por aqui.
Escrito por
Rômulo
às
21:53
2
comentários
Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008
Mas Já?
Bem, fiquei extremamente surpreso, porém muito feliz e lisonjeado, quando recebi as indicações para dois selos de qualidade de blogs. Nunca dou muita importância aos meus textos, que quase sempre me desagradam e acabam apagados. Apesar de metade do blog ser uma espécie de declaração de amor, parece que algumas pessoas gostam do que escrevo. Isso me deixa bastante alegre, afinal de contas, elogios são sempre bem-vindos!
Recebi as indicações do Infinito Público. Os textos de lá parecem estar em alto-relevo, tamanha a delicadeza com que são escritos. Os selos que o Infinito recebeu foram precisamente merecidos.
Agora vem a pior parte, preciso escolher alguns vizinhos para recebê-los.
Vou indicar três:
1 - Teoria do Papel - Os textos de lá tem um quê de jornalísticos, mas não são. Muito bom.
2 - Outro Blog da Mary - Esse é bem popular e já deve ter recebido dezenas de selos e indicações. De qualquer forma, meu humor sempre melhora quando leio os textos de lá.
3 - O Infinito Público - Não sei se posso re-indicar quem acabou de me dar um selo, mas vou fazer mesmo assim. Acho que ali em cima já expliquei porque gosto tanto desse blog.
Peço desculpas por não estar disponibilizando os links no texto, mas ainda sou um tanto inexperiente, e não sei fazer. De qualquer forma, todos estão aqui ao lado, nos favoritos.
Mais uma vez agradeço a dona do Infinito, Jana Cambuí, pelos selos!
Escrito por
Rômulo
às
20:20
2
comentários
Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008
Guerras Particulares - I
Onze de janeiro.
Em breve o golpe final será desferido. A ininterrupta batalha pela capital já dura 17 dias de fogo cruzado e as forças rebeldes já ocupam todo o lado oeste da cidade. Temo que minhas tropas não estejam preparadas para aguentá-lo. Estamos em menor número, e já não recebemos mais ajuda internacional. Ironicamente cercados, por apenas um lado. Decidi relatar algumas memórias neste diário, pois pressinto que serão as últimas. Nossos tanques ainda mantém os amotinados a uma certa distância, e talvez sejam nossa única salvação.
Passei toda a minha vida militar executando tarefas burocráticas, quase sempre atrás de uma mesa de escritório, e essa é a primeira vez que me envolvo com a violência de uma guerra. Nos primeiros dias de batalha, tive muito medo do momento no qual teria de atirar em alguém, que chegou como um soco no estômago. É estranho pensar que acabei com a vida do filho de alguém, quando eu mesmo espero o nascimento do meu. Que direito posso eu ter a esperar um filho, quando tiro a vida dos de tantos.
Escrito por
Rômulo
às
22:03
3
comentários
Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008
Irresgatável
Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata. - Carlos Drummond de Andrade.
Na verdade durou mais do que algumas frações de segundo, mas se petrificou da mesma forma, irresgatável. Irresgatável. Irresgatável porque se não por meio do acaso, já não existem mais possibilidades de encontrá-la.
Depois de escrever acerca dos desencontros pelos quais tenho passado desde sua partida, decidi tentar, e achei que minha única chance estaria na secretaria do curso, mais especificamente na bondade do secretário, que talvez sensibilizado pela minha história, pudesse me ajudar. Recebi uma negativa bem concreta, que não deixou margem para dúvidas e me fez entrever que talvez o melhor a fazer, até por falta de opções, seja deixar a lembrança onde ela está, petrificada. Talvez ela fique assim até que eu a encontre, ou então até que alguém tome seu lugar de musa e me resgate dessa eternidade.
Escrito por
Rômulo
às
23:24
5
comentários
Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008
Dentes
Pois então, agora, toda vez que vierem me perguntar sobre a minha cachorra na rua, vou apresentá-la assim:
— Olha, que bonitinha, parece um lobinho de pelúcia! Ela morde?
— Morde.
— Ah, jura? É brincadeira né? Uma cadelinha tão linda não pode morder de verdade...
— Não, é sério, ela morde mesmo. Principalmente quando está recebendo afagos. Eu vivo dizendo que ela é meio tã-tã, mas ninguém acredita. Na verdade nem eu acreditava no que dizia, até o dia em que ela me mordeu. Logo eu, o responsável pelo primeiro e único orgasmo da vida dela.
— Orgasmo, como assim menino, você bolinou a cachorra?
— Não, claro que não. Apenas deixei ela se fartar com a minha perna. No fim, ela já estava com a lingüinha caída do lado da boca, de tanto esforço que fez. Depois, quando terminou, se esparramou toda no chão e dormiu.
— Nossa, que legal hein. Tenho que admitir, você é bem excêntrico.
— Excêntrico, eu? Coitada, não chega nem a encostar as partes íntimas em mim, não custava nada deixar.
— Hum, está certo então, se você diz. Mas ela te mordeu?
— Mordeu, bem na hora em que eu estava fazendo carinho nela (mostro a mão dilacerada toda enfaixada).
— Ah, sei, er, certo, que legal então, acho que já vou indo, fica para a próxima, é, o carinho que eu ia fazer nela, tá bem? Tá certo, tchau.
— Claro claro, fique à vontade. Até mais.
Escrevi este texto todo com a mão esquerda, já que a outra está semi-inutilizada devido ao machucado que a minha cachorra me deu de presente, embrulhado nos pequeninos caninos dela.
Escrito por
Rômulo
às
20:15
5
comentários
Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008
Desencontros
Continuamente me percebo pensando no que faria se encontrasse minha musa naquele exato momento, estivesse onde estivesse. As vezes, na janela, tento imaginar se teria tempo de descer as escadas antes de perdê-la na primeira esquina. Do ônibus ou do metrô, se conseguiria saltar e voltar sem que ela já estivesse por demais afastada. É quase como se eu pudesse trazê-la para mais perto apenas com a vontade de ouvir sua voz mais uma vez.
É claro que a possibilidade de que eu ainda venha a encontrá-la algum dia é quase nula, e a não ser que eu resolva procurá-la, tudo deverá continuar como está. Mas como quem escreve sou eu, e este texto segue para onde eu quiser, vou apenas elucidar melhor a gravidade da questão.
Partamos do pressuposto de que eu consiga encontrá-la. Existiria ainda a chance de ela sequer se lembrar de mim, e para completar, com os devaneios à parte, haveria também a (imensa) possibilidade de eu descobrir que ela é totalmente diferente do que eu imaginei, para pior, ou para melhor.
Não sei se seria a melhor idéia tentar procurá-la. Se eu ao menos soubesse a cidade na qual ela mora ou seu sobrenome, já seria um bom começo.
E agora?
Escrito por
Rômulo
às
23:10
5
comentários
Domingo, 30 de Dezembro de 2007
Paliativo
Difícil imaginar que na falta de uma fotografia da amada, alguém poderia se contentar com a de uma, digamos, quase sósia. É certo que a quase sósia não chega a ser uma cópia exata, mas ainda assim as semelhanças são surpreendentes, quase incríveis.
Tê-la tão perto, e tão real, tão parecida e ao mesmo tempo tão diferente, traz de volta lembranças, palavras e olhares que inevitavelmente se enfraqueceriam e acabariam perdidos.
Perceber tantos traços daquele rosto altivo, que parecia sempre conter um sorriso implícito, na face de outra mulher é uma experiência no mínimo estranha, mas que de certa forma, ajuda a diminuir o tamanho de um oceano...
Escrito por
Rômulo
às
23:43
1 comentários
Domingo, 23 de Dezembro de 2007
De Saramago Para Niemeyer
"Nós, portugueses, nós, brasileiros (acabo de comprová-lo no Aurélio) não cumprimos anos, fazemo-los. Já se pensou no bonito que é mexer no tempo, empurrá-lo, estendê-lo, empurrá-lo, e a isto chamo eu vida, e de repente começar e receber e-mails, cartas, chamadas telefónicas de parentes e amigos que nos dizem: "Parabéns, mais um ano". E nós respondemos: "Bom trabalho me deu, mas aí está, feito". Aí estão agora estes cem, feitos por Oscar Niemeyer, amassados de todas as esperanças e razões do mundo, entregues nas mãos do futuro, com estas palavras de promessa: "Aqui estive, aqui estou, aqui me encontrarão sempre". Querido Oscar, até ao próximo ano."
De um gênio, para outro.
Escrito por
Rômulo
às
19:44
1 comentários
Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007
A Moça
O céu estava cheio de nuvens, que pareciam mais algodão do que qualquer coisa e ensaiavam toda sorte de alvas formas no azul da manhã ensolarada. Ela olhava para o alto, tentando achar alguma que se parecesse com uma torta de limão. Ela adorava tortas de limão.
A sombra da árvore na qual descansava fazia um contraste inesperado em seu rosto, e apenas uma faixa de luz cobria seus olhos. Era impossível não notar a escuridão de seus cabelos, que caíam docemente pelos lados do rosto até quase tocar os ombros. De fato, ninguém deixava de notar. Todos que passavam se hipnotizavam com sua visão e alguns chegavam até a tropeçar com a boca aberta. Ela lembrava uma dessas atrizes de antigamente, que no esplendor de sua beleza parecem não notar os olhares que recebem.
Vestia um vestido branco, com bolinhas verdes, que pareciam ser uma promessa das sinuosidades e relevos que aquele corpo possuía enquanto realçadas pelo verde forte do gramado.
Seus lábios cor-de-rosa se moviam bem devagar, como se cantasse apenas para si, de forma que ficava ainda maior a curiosidade dos passantes.
Nunca se soube o que esperava ali debaixo daquela árvore, mas o que quer que fosse, perdeu a graça. Ela se levantou, e se já atraía atenção sentada olhando para o céu, com seu andar elegante de corça até o trânsito parou para olhar.
Foi-se, com o olhar perdido por não ter achado sua nuvem de limão.
Escrito por
Rômulo
às
01:04
1 comentários
Sábado, 8 de Dezembro de 2007
Inocência Divina
Se eu fosse algum tipo de Deus (sim, caro leitor religioso, eu as vezes blasfemo e me imagino como Deus), apagaria em primeiro lugar toda forma de governo, órgão público ou organização privada, que mantivesse algum tipo de controle sobre o homem. Isso incluiria escolas, universidades, empresas, delegacias, hospitais e até partidos políticos. Nem as fronteiras seriam poupadas, nacionais, regionais ou continentais.
Depois disso, acabaria com qualquer tipo de manifestação cultural, religiosa ou social, com os limites morais e qualquer coisa mais que limitasse a profundidade infinita que possuímos dentro de nós.
Ao terminar de usar minha borracha divina, sobrariam apenas os homens, sozinhos no mundo e livres para criar e pensar.
Com minha onisciência inerente a qualquer deus, veria então os homens, mesmo livres, fazendo e recriando tudo da mesma forma. Tomando as mesmas decisões erradas.
Assim eu entenderia, que o homem não tem a capacidade de se gerir coletiva ou individualmente, que precisa de algo que o controle, algo em que acreditar para não ter de pensar na dor que é viver.
Veria também que toda a baixeza e mesquinharia que é espalhada pelo mundo se faz necessária, para que do meio dela, possam nascer as virtudes grandiosas que são empunhadas por alguns indivíduos especiais que de vez em quando aparecem por aí.
Finalmente, me daria conta de que não adianta apagar as coisas que regem o homem e dar-lhe a liberdade. O que de fato adiantaria, seria apagar os próprios homens, deixando um ou outro escolhido, para que esses pudessem refazer a humanidade. Talvez até criar uma espécie nova.
O homem é o ser perfeito para se lutar por liberdade, mas é o pior de todos quando a questão é aproveitar as que são conquistadas.
Numa situação hipotética, onde o universo fosse totalmente explorado e centenas de planetas com vida inteligente já tivessem sido descobertos, nossa existência poderia talvez ganhar um significado concreto. Seríamos mercenários, contratados para lutar pela liberdade de outros planetas oprimidos por raças mais fortes. Nós faríamos o que sabemos de melhor, e os contratantes poderiam aproveitar sua liberdade da forma que melhor lhes apetecesse depois que a conquistássemos.
Não quis perder muito tempo pensando nessa possibilidade de ser Deus, mas acho que seria mais ou menos assim minha experiência como Ele, bem curta.
Escrito por
Rômulo
às
17:33
1 comentários
Terça-feira, 27 de Novembro de 2007
A Estranha Perfeita
De início, o que me pareceu estranho foi o fato de que não conseguia tirar os olhos dela, mesmo sem ter notado qualquer tipo de beleza extraordinária. Quinze minutos depois, eu tinha a certeza de que já não havia nada de mais belo em todo o mundo, e a culpa de não ter notado tamanha beleza estava no meu problema de vista.
Eu não sou exatamente um especialista em esconder as coisas que sinto; com isso, é claro que eventualmente ela acabou percebendo o tanto que eu a observava. Isso me obrigou a apressar o processo de criação de coragem, antes que a brincadeira de trocar olhares perdesse a graça e eu ficasse a ver navios.
Tudo teria seguido bem, se ela não tivesse voltado para Portugal no fim de semana. (Esqueci de mencionar que ela é portuguesa). Quando a ouvi falando pela primeira vez, me lembro de ter pensado que dali, não a deixaria mais escapar de jeito algum.
Acabei ficando pelo Brasil mesmo, sem saber o que fazer com a saudade que vinha me atormentar de vez em quando. Resolvi construir um puxadinho no ponto mais afastado de mim e toda vez que a lembrança vem, em vez de expulsá-la a tapas e pontapés, deixo-a entrar e indico logo seu referido cômodo.
Amores à primeira vista nos levam por caminhos muito estranhos.
Escrito por
Rômulo
às
21:02
4
comentários
Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007
Sábado, 24 de Novembro de 2007
À la Mendes Campos
Coisas Deleitáveis
Fazer barba ouvindo música clássica; a bomba de creme e o capuccino do forte copacabana; sotaque de portuguesas, mineiras e gaúchas; cafuné de avó, escrever em máquina de escrever; tiro ao alvo; atirar com arco-e-flecha; arremessar facas; cachorro que faz festa pra quem chega; andar de avião; andar de submarino; andar em navio de guerra; andar em tanque de guerra; pular de pára-quedas; brisa da madrugada; água de filtro de barro; andar de cavalo; cantar no chuveiro; jogar videogame; jogar sinuca; jogar taco; remar na lagoa de madrugada; cavar buracos com pá e carrinho de mão; sorvete com conversa do motherfucker; fotos antigas de família; tentar adivinhar o cavalo vencedor do páreo; cinema na última sessão; demolir paredes; achar dinheiro; pisar descalço em grama molhada; banho de mangueira; escalar árvores; balanço com corda comprida; aprender malabarismo; dar autógrafos; chapéus que escondem a careca; assistir máquina de lavar batendo roupa; deslizar no sabão; colocar roupas dos pais quando ainda somos crianças; viagens inesperadas; viagens ansiosamente esperadas; jogar truco com os velhinhos da praça; café da manhã de hotel; vitória em final de campeonato no maracanã; sombra de árvore; pescar com a linha na mão; cheiro de chuva no mato; mudar para apartamento maior; amigos que nos lembram de histórias divertidas; matar aula; passear por livrarias; caixa de ferramentas; descobrir uma frase que nos revele; se arrumar para uma grande festa de gala; chegar em casa e colocar o pijama depois da grande festa de gala; imaginar o que faria se ganhasse na loteria; a cena do tango em "perfume de mulher"; tirar passaporte de outro país; festa à fantasia; passar de faixa em arte marcial; primeiro beijo, carinho e abraço na nova namorada; ter uma namorada; jogar botão; usar máscara de oxigênio; ligar a lanterna quando acaba a luz; saber ler partituras; montar miniaturas de lego; conseguir fazer flexão de braços com um braço só; ver a vizinha trocando de roupa pelo binóculo; apresentação da banda predileta; menina bonita com vestido de bolinha.
Escrito por
Rômulo
às
21:00
2
comentários
Terça-feira, 20 de Novembro de 2007
Singularidades
Uma vez li uma crônica que dizia que não devemos amar as pessoas apesar de suas diferenças, mas sim por causa delas. São essas diferenças que tornam cada amor único.
Escrito por
Rômulo
às
23:28
3
comentários
Aviso
"Doravante à colocação deste aviso, ficam terminantemente proibidos o trânsito e a permanência de formigas e pernilongos neste recinto. Os desobedientes serão sumariamente executados".
No meu quarto mando eu.
Escrito por
Rômulo
às
22:28
2
comentários
Máscaras
Também nunca gostei que me vissem chorando. Talvez por orgulho. Talvez por vergonha. Provavelmente por não querer me permitir um momento de fraqueza.
Todos nós temos muitos homens, mulheres e crianças dentro de nós, e é impossível ser um só todo o tempo. Apenas vestimos a máscara adequada para cada ocasião.
Escrito por
Rômulo
às
18:06
1 comentários
Coincidências
"And when I feel, fair creature of an hour!
That I shall never look upon thee more, (...)
Of the wide world I stand alone, and think." - John Keats.
"Quando sinto que nunca mais hei de te ver,
Formosa criatura de um momento ideal! (...)
Do vasto mundo eu fico só, a meditar." John Keats, na tradução.
Chega a ser quase incrível, como as vezes certas coisas que lemos condizem perfeitamente com momentos pelos quais passamos em nossas vidas. Ainda escreverei mais sobre o assunto.
Escrito por
Rômulo
às
15:28
0
comentários
Inspiração
Gostaria de ter tal brilhantismo, mas fico apenas no perceber um lado da realidade até então despercebido. Daí a escrever algo que tenha algum valor já é uma outra história.
Escrito por
Rômulo
às
15:13
2
comentários