Onde Reina o Seu Silêncio?

– Quem procuras não está – respondeu. – Mas como aqui é a casa dos que não estão, pode entrar.

Domingo, 31 de Maio de 2009

O Inferno Nosso de Cada Dia

Sou cada pedaço infernal de mim.
Uma espécie de pós-modernismo arcaico, o murmúrio da imortalidade levado por uma brisa qualquer.
Uma pilha de botões furta-cor que desmorona ao assoprar. O infinito limitado pelo grito de crianças loucas. A parede recoberta por plantas, invadidade por raízes de algo que não lhe pertence e lhe toma por dentro. A chama eterna que não dura, mas existe pelo tempo suficiente para queimar.
O rei sem cabeça.
O esquecimento que se é lembrado todos os dias. Os cem anos de solidão, dos quais a estirpe condenada não escapa. As ruínas da fortaleza destruída pelo tempo. O castelo que tomba, empurrado pela noite úmida. O caminho tortuoso que sobe e desce. As muralhas das cidades invisíveis.
O amor que destrói tudo ao redor.
O espelho que gira. A lucidez dos votos brancos. A extensão da memória de alguém. O tempo que já passou e o que ainda virá. O tempo que é. Sou feito de tempo, também.
Saber-se algo ou alguém é uma tarefa complicada. Pode-se ser isso e pode-se ser aquilo. O que somos varia a cada segundo, as vezes se é nada, as vezes se é tudo.

Domingo, 3 de Maio de 2009

Crônica de uma Lágrima Inacabada

Primeiro é como se não existisse. Como um pequeno pedaço de frio que se movimenta, anda por dentro de nós sem saber ao certo para onde ir. Mas o frio indistinto cresce lentamente, e traz consigo outros, que se espalham pelo corpo, deixando-nos em um ligeiro desespero. O frio começa a congelar, se transforma em gelo, em dor. Não uma mera dor física, que afinal de contas é suportável, mas uma dor indefinível, que não se sabe bem onde está nem como enfrentar. Mas a dor traz calor. Um pequeno pedaço em brasa que dói e se movimenta por dentro de nós, incinerando, cortando e cauterizando ao mesmo tempo. Então o frio volta, e uma amálgama de sentimentos e dores se condensa por dentro; torna-se palpável, insustentável.
E assim aparece o medo. O medo da impotência, o medo de depender. O medo da perspectiva de invencibilidade afastada que a submissão traz. O medo do medo.
Por fim, o que era sólido torna-se impalpável novamente. A agonia inunda cada segundo, e o coração desorientado bate sem compasso. Os músculos se retesam, e o corpo se endurece, treme pela força descomunal que lhe é aplicada. Preparando-se para o expurgo da dor nas fogueiras da auto-inquisição, as veias saltam; algo sobe pelo estômago, pára na garganta, como uma bolha prestes a explodir. Mas então a lágrima não sai...

Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

E Do Amanhã, O Que Será?

O tempo passou.
Percebo-me outro, diferente do jovem forte e bonito que já fui. Não mais caminho sem o auxílio de minha bengala e, quem diria, até mesmo não escuto tão bem. Minhas pernas tremem por qualquer escada, meus olhos doem quando olho para o azul do céu. E tenho medo de que canse de mim porque fiquei velho.
Olho bem no fundo de seus olhos, e vejo o azul pelo qual me apaixonei há tanto tempo atrás, e esse não me dói olhar. Percebo que o tempo também passou para você. Seus cabelos ficaram brancos, seu corpo perdeu o frescor da juventude. E tenho medo de cansar de você porque ficou velha.
Mas então escuto sua voz, e percebo que ela continua a mesma, só que mais doce; sua mão que insiste em se agarrar na minha enquanto caminhamos está cada vez mais macia, e seus lábios me beijam com tamanha brandura que meus joelhos quase cedem.
E assim eu entendo, que o tempo passou para nós, sim, mas que o carinho que fica substitui qualquer paixão, que tivemos lindos filhos e que nossos netos admiram nosso amor antigo. Entendo que somos um, e que não há felicidade maior do que essa.
Minha querida, se um dia acordar e perceber-se no céu, não tema, estarei chegando logo atrás.

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

O Homem da Casa

A enorme caixa de metal se impõe no alto, sobre minha cabeça, como se dissesse que ali era seu lugar, e que não deveriam tocá-la. Repouso minhas mãos sobre ela, e pressinto todo o peso que se esconde ali dentro, perguntando-me se o arrepio que me desce pelos braços vem do frio férreo ou se do temor de um peso além de minhas capacidades. Orgulhoso, aceito o desafio da caixa, respondendo-lhe que ela será, sim, retirada dali.
Puxo-a para fora de sua morada, em direção ao meu peito, e percebo que meus temores eram justos. Uma grande força se descortina em meus braços, e sinto meus músculos retesados, tremendo pelo esforço. Ainda surpreso pela descoberta de uma força que, até então, me era desconhecida, a caixa se aperta sobre minhas mãos, meus braços e meus ombros, e percebo as partes mais finas do metal se afundando, abrindo caminho em minha pele, mostrando que ela também sabia lutar e que faria de tudo para honrar o desafio proposto. A dor me desorienta mas, mantendo meu papel de bom (e único) filho, levo o monstro gelado até o outro cômodo. Ainda que exausto, faço um último esforço, e o levanto por cima dos ombros; finalmente o deixo, repousado e derrotado. Observo minhas mãos, e vejo o vermelho do sangue escapando, afluindo pelos cortes.
Ainda que sentindo muita dor e com os braços tremendo, olho para cima e fico satisfeito, o grande e velho ar-condicionado estava em seu novo quarto.

Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Literatura Russa

Os olhos terríveis flamejavam, encimados pelas sobrancelhas franzidas, e o corpo tenso se endurecia a cada respiração. Aquele jovem se atrevia a cortejar sua esposa assim, na frente de todos. Isso não era possível, como ninguém mais se atormentava com uma cena tão vil e odiosa? Todos riam, mas ele sabia que por trás de toda aquela aparência se descortinava uma intenção excusa. Talvez todos achassem que ele não era um bom marido, o que, é claro, era um absurdo. O ponto é que todos fingiam não perceber o que acontecia, e não havia qualquer motivo que não fosse uma conspiração para que isso estivesse ocorrendo.
Aqueles sorrisos e os gracejos do jovem rapaz eram um insulto à sua vida familar, até mesmo à gravidez de sua esposa. Como um quase estranho poderia se infiltrar assim em sua família e criar tamanha situação sem ser acossado?
Não havia motivos para se incomodar com o fato de não ser amigável, e ele gostava de ser assim. Após o lanche da tarde, quando as crianças já brincavam longe de todos e cada um se preocupava com seus próprios afazeres, foi até um empregado e lhe mandou atrelar os cavalos em uma carruagem. Procurou pela casa e encontrou o jovem sentado sozinho no jardim, com um sorriso quase imperceptível no rosto, observando as nuvens. Ao ser percebido, viu que o rapaz se perturbou com o olhar que trazia consigo, e viu que ele também sabia o motivo daquele olhar, mas que ao mesmo tempo tentava se manter firme.
- Mas então, que belas nuvens o senhor possui em suas terras.
- Sim, mas você não mais irá vê-las, já mandei o empregado atrelar meus cavalos em uma carruagem, e eles o levarão até a estação de trem mais próxima.
- Mas porque, por favor me perdoe, fiz algo que o irritou? - perguntou, tentando manter uma certa aparência de incredulidade.
- Não é necessário que você saiba os motivos pelos quais tomei essa decisão, apenas vá.
Observando os braços poderosos que tremiam, o rapaz sentiu medo, e percebeu que não seria uma idéia inteligente contrariar aquele homem, obviamente enfurecido. Ainda que por volta dos quarenta anos, ele possuía uma resistência maior do que vários mais jovens juntos. Aquelas grandes mãos, certamente, poderiam quebrá-lo como se fosse um pequeno galho de árvore. O tamanho e a constituição do homem, somados aos olhos fogueantes e à barba crescida contra o frio não deixaram dúvidas, e ele simplesmente consentiu.
- Será que posso me despedir de sua família e de meu primo?
- Apenas lhe peço que vá, agora, sem mais falar ou perguntar.
O rapaz percebeu que era hora de ir, e apenas caminhou até a carruagem, onde suas malas já lhe aguardavam.
O céu ficou ainda mais bonito, e as nuvens desenharam lindas formas no céu.



*Qualquer semelhança com o romance "Anna Kariênina", de Liev Tolstói, não é mera coincidência. Tentei fazer uma espécie de releitura, se é que posso chamar assim, de uma passagem que muito me agradou.

Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

De Joelhos

Acontece por si só, já avisava minha querida mãe sobre o amor.
E assim aconteceu. Quando pude lhe entrever, você já estava por aqui, dentro, no meu peito delimitando seu território, expulsando, sem querer, tudo o que bem entendia: todo o resto.
Sem avisos ou palavras, me observou e descobriu meus tormentos. Se aninhou em meus braços, como se dissesse que eu nunca mais precisaria temer o amor, que você sempre estaria ali, e eu acreditei no que seu abraço me dizia.
Em seus braços, percebi que meus temores podem, sim, me tornar indestrutível, mas também podem me tornar intangível.
Foi quando seu beijo me empurrou, me derrubou. Meu coração, que sempre bateu tão forte, agora se ajoelha. Ele não sabe o que faz, e assim aguarda.
Prefiro parar por aqui, assim, sem muito dizer.

Sábado, 17 de Janeiro de 2009

Para Fora

Eu gritei, esperneei e chorei; mais alto do que deveria, mais duramente do que deveria, mais longamente do que deveria. Guardei meu silêncio para o depois, o silêncio que você merecia ficou guardado para o depois. Essas lágrimas que escorrem pelo meu rosto não são nada. Não. Sim. São. Nada. São pequeninas que me fazem carícias nos lábios, e eles sorriem.
Eu lhe quero bem longe, e esse querer me faz feliz. Seu silêncio quer sair, sair do meu peito, me envolver, mas eu luto, esperneio e o mantenho aprisionado. Eu choro.
Quero sentir essa dor que prova que estou viva, quero que ela vá embora. Quero ser ele, quero ser você. Quero ser ela de novo. Quero ser eu. Não quero mais ser. O silêncio me quer, e esse querer me faz triste.
Quero tudo ao contrário, quero encontrar quem está dentro de mim. Cansei de descobrir os que não estão, conversar com quem não existe. Quero me arrancar de dentro do peito, fazer disso um alguém. Quero ser um. Inteiro.
Quero alguém para dividir, quero ser dois, e de dois fazer mais um, quero ser três, e depois quatro. Quero ser um, mas quero deixar de encontrar partes minhas dentro de mim, quero partes de mim dentro dos outros. Quero me encontrar todo dia e sorrir.
Quero voltar no tempo, quero fazê-lo correr, viver de novo e não viver.
Quero abrir todos os silêncios que já guardei, fazê-los falar.
Quero sentir menos. Quero sentir mais.

Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Reine Sobre Mim

Seus olhos são duplos.
Em um momento parecem austeros, como se desafiassem ou estivessem à espreita de algo, mas logo depois crescem, e ficam inocentes, em algo que plana entre a interrogação e o convite. Tenho medo de cair dentro desses seus abismos castanho-escuros. Tenho medo de me aproximar demais, e de ver essa escuridão tão luminosa me cobrir e me arrastar, me deixar sem opção.
As vezes deito e tento me concentrar no descompasso do coração, e me pergunto se não é por você e todas as suas inconstâncias que ele paira, suspenso. Naquele breve momento no qual ele aguarda por alguns segundos, como se sentisse sua presença e esperasse por uma palavra ou um sorriso, mas acaba por desistir e bate duas vezes mais rápido para esquecer, fingir que você não existe.
Eu lhe pronunciaria as mais belas palavras de amor; perderia dias inteiros tentando decifrar esse seu infinito labirinto, mas você nunca saberá disso. Você nunca saberá como a luz escorre por sua pele de seda, como seus lábios macios seduzem e subjugam minhas vontades, como sua voz doce e cuidadosa enleia minha razão.
Fora de minhas mãos, minhas letras se perdem no mar que há em seus olhos incertos, assim como a voz que se perde exigida pela tempestade: não lhe tocam o coração tenebroso. Sobram-me as vistas que perseguem, as sombras que permanecem, as vozes que me procuram em sonhos. Você me faz esquecer por um momento de todas e quaisquer certezas.
Em nosso quase-início, não tivemos ainda um fim. Assim, não quero terminar esta carta; a deixarei à espera das palavras que, um dia talvez, possam completá-la, revelar essa dor que me aperta e me esmaga e não vai embora. Ficará, pois, por aqui, repousando, aguardando, quem poderá saber?

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

O Apanhador de Sonhos

Eu estava na rua. Fugindo de alguém, ou alguma coisa, como uma espécie de monstro abissal, algo assim, meio cthulhu.
Mas de repente me vinha uma vontade imensa de ligar para uma certa pessoa, que não pretendo citar nominalmente aqui, uma urgência.
O tal monstro não queria que eu telefonasse, ele queria atrapalhar meus planos e ainda me fazer de jantar. Para completar a ligação de forma segura, abri um bueiro e pulei dentro dele. O monstro era grande demais, não caberia ali.
Dentro do bueiro era muito escuro, e era possível divisar uma pilastra cinza e suja, onde havia uma caixa de metal, pequena. Eu sabia que dentro dela deveria ter um telefone. Quando a abri, estava vazia.
Neste ponto meus olhos já se acostumavam à escuridão, e vi, como um bueiro bem deve ser. Uma avenida subterrânea comprida e escura, suja com algo que parecia graxa, empoeirada.
Logo abaixo de mim, havia outro bueiro, ou alguma espécie de passagem para outras galerias ainda mais profundas. Resolvi entrar, pois poderia encontrar um telefone por lá.
Essa mesma cena se repetiu mais duas vezes. Chegava em um local muito parecido com o anterior, e novamente não encontrava telefone na caixa antiga de metal.
Ao chegar em outro túnel, percebi que este era diferente dos demais. Eu estava no túnel do metrô. Ruídos chegavam de diferentes direções, como se os trens andassem em diferentes direções e níveis. Eram ruídos ameaçadores, como uma promessa do perigo que em breve me encontraria.
Encontrei outra caixa de metal, e nesta havia o telefone. Liguei para a menina, mas quem atendeu foi minha mãe. Eu dizia, exasperado, que não era com ela que queria falar, que tinha ligado para outra pessoa. Os ruídos aumentavam, e eu sabia que o perigo do trem se aproximava.
O gemido fino e assustador vinha e aumentava de volume. Os faróis já iluminavam o túnel.
Eu estava atrás da pilastra, no corredor lateral, e o trem passaria ao meu lado, não me acertaria. Mas havia um perigo, o metrô, quando passava, trazia uma onda de eletricidade que atingia tudo que estava ao redor. Os choques eram uma espécie de massa luminosa, que envolvia tudo. Era como se o trem fosse levado por ela, levitasse sobre ela.
Me espremi o máximo que pude na pilastra, e falava repetidamente com minha mãe, cada vez mais rápido, a cada ligação mal-sucedida, que eu ligava para outra pessoa, que não era com ela que pretendia falar. Não escutei mais o que ela dizia. O trem passou, e a onda de choque não me acertou. A pilastra havia me protegido. Continuei vivo. Neste momento, um funcionário do metrô caiu morto, do outro lado da pilastra.
Haviam mais dois funcionários. Eles certamente tinham me ouvido falar ao telefone, e não me deixariam ligar para quem eu queria. Eu ligava seguidamente, em desespero, mas era sempre minha mãe que atendia, e eu dizia as mesmas coisas.
Haviam grades de ventilação em algum lugar à minha esquerda, próximo da parede, e alguma luz era entrevista. Assim eu podia ver os funcionários, e eles a mim. Mas eles pareciam não se importar. Vinham em minha direção rindo, como se estivessem felizes por me achar ali.
O metrô passava outras vezes, repetidamente, em meio ao meu desespero que girava entre a necessidade de fazer a ligação e me espremer atrás da pilastra, para que a eletricidade passasse e não me acertasse. Além de estar sendo obviamente visto. E eu sempre conseguia não ser acertado pela eletricidade.
Desisti da ligação. Ainda era de madrugada, o metrô não estava em horário de funcionamento. Aqueles trens levavam apenas funcionários.
Mais um trem chegava, o ruído, as luzes, e eu sabia que desta vez não teria escapatória. Mas desta vez ele parou, para buscar os dois funcionários. O morto ficou por lá mesmo. Aproveitei e entrei também no trem.
Ele não possuía carros, era apenas um longo trem sem divisórias internas, assim como o metrô de Paris. Entrei, me deitei debaixo dos bancos, para não ser visto, mas os funcionários me viam e riam, como se eu tivesse conseguido fazer algo divertido, e eles aprovassem. O trem já andava.
Então o despertador tocou, e eu acordei muito irritado.

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

Favor Avisar

Favor desprezar os desabafos e agradecimentos, sem valor literário.
Favor pular diretamente para a literatura.
Favor ignorar o fato de que não tempo para postar.
Favor ter paciência.

Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

Médias Insanidades

Dizem que as lágrimas ajudam a levar o sofrimento em partes, mas não as minhas.
Se Deus existe, Ele não gosta de mim, por isso prefiro acreditar que não. Se um dia eu precisar prestar contas pela descrença, tenho certeza de que minhas razões serão entendidas. A ignorância é uma benção, mas eu não tive a sorte de recebê-la. A falta de beleza é libertadora, mas eu também não ganhei uma dose adequada, para poder não me ater à exigências, estúpidas sim, mas das quais não consigo me livrar. Vejam bem, não estou dizendo que me acho bonito, minhas inseguranças não me permitiriam escrever algo tão presunçoso.
Uma vez abraçei meu pai, e começei a chorar. Todos acharam que eu chorava por um certo motivo, mas a verdade é que chorei pelo abraço. Levei quatro anos para contar isso a ele.
As vezes me apaixono em apenas um segundo, mas a recíproca não é verdadeira. O problema de verdade, aliás, é quando me apaixono em um segundo e não consigo mais desapaixonar.
Meus amores são inocentes, e as pessoas costumam ser avoadas demais para perceber que seus preâmbulos podem fazer doer.
O que eu tenho de melhor está além do que se vê (ou lê).

Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

Cinzas

– Isto me lembra algo. Acho que são os tantos carros, atracados no trânsito, em seu mar de luzes vermelhas e brancas que dançam por toda a vista, hipnotizantes.
– Isto me lembra algo. Mas não são os carros; é esta brisa fresca, que me alivia o calor do rosto e seca o suor que goteja pela face, volteando-se pelas curvas de meu braço.
– Isto me lembra algo. Talvez sejam os carros, talvez seja o vento, mas ainda mais, são as incontáveis janelas acesas que chamam meu olhar curioso.
– Isto me lembra algo, mas não sei o que é.

Em meio à irresgatabilidade da lembrança, me perco nas mãos delicadas e brancas que apenas me ouviam, mas desinteressadas pela minha memória inefável, me abraçam por trás, e me percorrem indolentemente.
O corpo molhado se combina ao meu, e recebo o beijo incandescente no pescoço. Pressinto os seios rijos às minhas costas, me incendiando, zombando de meu auto-controle. As poucas roupas que restavam se fazem desnecessárias, e o quarto se consome em meio às chamas...

Existem lembranças e lembranças, algumas se perdem, outras ficam.

Domingo, 3 de Agosto de 2008

Dadaísmo Literário

Amanhã eu acordei de noite, e minha mãe me trouxe o café no fogão. Haviam talheres de prata e uma bela baixela de porcelana, mas comida que é bom, só em cima do lustre. Mudei de idéia e resolvi, então, sorver um belo chá de caramelo, ou terá sido um suco? Mandei o mordomo preparar meu banho de tangerina e saí para o mar, para me lavar. Depois de retirar os cascões, fiquei parecendo o Cebolinha, já que também sou carequinha. Fim do parágrafo.
Boa pergunta, tem alguém aí? O jornal de semana passada disse que choveu.
Vou pintar meu passaporte de vermelho para poder jogar bolinha de gude em Amsterdam.
Sabe que outro dia inventei um carro? Ele voava, mas pensando bem, o que voa é trem, então ela pode dizer que inventei um submarino.
Cansei, texto velho e sem sentido, não sei de verdade o que é dadaísmo.

Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

Dispersão

Terça-feira, 15 de Julho de 2008

O Último Concerto

Sente o frio, caro colega? Como uma canção de despedida, o vento serpenteia teu corpo entregue aos sentidos, mas estapeia teu rosto como um chicote gelado e invisível. A aurora é demorada e sofrida; é um parto com dores cruciantes, é um parto do Sol. No teu estômago voam pequenos insetos de asas leves e coloridas, voam borboletas, então você corre, corre muito e o ar te falta como se te faltassem sonhos: não te falta nada, continue correndo, até alcançar o gosto dos prazeres pequenos, dos olhares marcantes, dos gestos improváveis, aqueles que não se tem a certeza de que aconteceram.
Caro colega T., sinto falta do teu abraço acolhedor de quando eu chegava aí no início do inverno. Os adjetivos e as imagens aí em cima são para você sentir saudades de mim e do meu jeito nostálgico. Não sei bem o que posso te escrever nessa carta, pois sei que você já está por dentro de tudo o que acontece em minha vida por meio de correspondências com gente alcoviteira. Longe de mim, estar bravo.
Não se preocupe, T., nem com os meus sentimentos, nem com as minhas faltas com as drogas e com as precauções que deveria tomar. Olhando, outro dia, para o entardecer - naquele momento em que o sol já se pôs, mas que o céu ainda conserva uma claridade que não consegue esconder as primeiras estrelas - tive a impressão de que morria. Foi estranho, mas ao mesmo tempo tão magnifíco!, sentir que o tempo é o deus de tudo sem ser um ser. Diga-me T., o homem criou o tempo, ou o tempo criou o homem? Não me refiro à divisão dos minutos e horas, da criação dos meses, nem nada disso; eu falo daquele tempo que é o tempo que não podemos voltar, nem enxergar além, apenas vivê-lo. Aquele tempo que nos mata, amigo.
Eu tenho ouvido constantemente, como se fosse algo distante que o vento traz, a música cortante e depressiva de um piano, em notas baixas, porém sonoras. É uma melodia triste e pausada, que me mete medo. Perguntei aos vizinhos se alguém região possuía um piano. ninguém tem um piano por aqui, T. São coisas da minha cabeça. Desconfio ser o prenúncio da minha morte. Portanto, não pus data nesta carta que você deve estar lendo e se arrepiando, pois, quando ela chegar aí já deverei ter morrido. Isso me arrepia também, companheiro, pode acreditar. Mas é que o piano tem me tocado o coração que se acelera quando o ouve, e faz subir minha pressão. Não tomo os remédios porque não quero, mas a causa da taquicardia é somente o piano, e nenhum comprimido vai resolver esse problema. Minhas mãos já estão cansadas de escrever, chego quase ao final desta carta com as articulações dos dedos doendo.
As palavras já não são mais minhas amigas, elas me fogem. Palavras não gostam de velhos gagás; ou vai ver são elas que nos deixam gagás, para que os escritores teimosos se aposentem. Lá se foi a minha glória, a minha criação, a minha vida. Esse é o fim da história que o tempo escreveu pra mim, T. Que tuas mãos enrugadas não estejam tremendo como as minhas, ainda tens muito que trabalhar com teus sapatos e tuas plantações de verduras. Grande Abraço.

T. deixou cair a carta e o envelope, onde tinha escrito apenas: "Só leia ao nascer do Sol, enquanto durar o inverno". Ele contempla a aurora e descansa as costas, até então tensas, finalmente, no encosto da cadeira de balanço.


Pois bem, este texto não é meu, mas sim da Jana Cambuí, dona do Infinito Público, e me foi dado de presente. Eu, igualmente, dei um texto meu de presente para ela, então caso queiram, cliquem no link aqui em cima e leiam. Fico muito honrado de ter um texto de uma amiga que escreve tão bem junto com os meus, e mais honrado ainda de ter um entre os dela. Espero que gostem.

Segunda-feira, 23 de Junho de 2008

Dualidade

Ao sentir-se despertando ao lado da pessoa que ama, abriria os olhos?

Ao sentir-se despertando ao lado de uma pessoa que não existe, abriria os olhos?

Terça-feira, 17 de Junho de 2008

Infinitamente

E assim foi decretada a infinita ditadura do silêncio.
"É silêncio o que se deve ouvir, e é pelo silêncio que se deve calar", e assim se fez. Se fez em meio à falta, um novo alfabeto, no qual as probabilidades do sentir não seriam mais refreadas pelas curvas dos labirintos da palavra; no qual o corpo humano e suas delimitações carnais não se faria mais necessário. Nos ergueríamos do pó acumulado pelas décadas, e como deveríamos ser, nos transformaríamos em semi-deuses; intangíveis, impalpáveis.
Que ouçamos os olhares; "o barulho que o vento faz quando balança as árvores da praça"; a chuva que rola pelo gramado na tempestade, que dança seu balé na contraluz; o vento que assobia sinfonias nas janelas, e promete um dia nos levar; o abraço apertado; o afago no rosto, que percorre todo o corpo, terno; o beijo quente; a respiração sôfrega. O calor do corpo molhado.
Neste novo governo não haverá princípios ambíguos nem tergiversações fugidias.
Haverá, pois, paixão.

Bastante, fortemente e totalmente inspirado no texto "Um Minuto de.", de Jana Cambuí, do Infinito Público. Acho que só me resta agradecer pela autorização, espero que ela goste.

Sábado, 7 de Junho de 2008

Caderno de Anotações




Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

As Pequenas Memórias Francesas

Foi muito divertido encontrar uma bomba de gasolina no meio da calçada.
Quero morar em um edifício que tenha as paredes exteriores cobertas por plantas.
Pode não parecer, mas virar a cabeça de um lado para o outro seguindo uma bolinha de tênis é mágico.
Parei em todas as livrarias que encontrei.
Não vi papel algum no chão.
Esperei por trinta minutos uma loja de instrumentos musicais abrir, mas o dono não apareceu.
É apaixonante ver uma francesa usando sobretudo, cachecol e chapéu.
Ah sim, e elas são realmente lindas.

Sábado, 24 de Maio de 2008

A Morte

Os primeiros raios de sol davam uma palidez congelante ao acinzentado céu. A névoa ainda não havia se dissipado, e as longas colinas gramadas estavam cobertas por uma fina camada de neve, destoando uma impressionante mistura de verde e branco.
Seus longos cabelos vermelhos flamejavam, e eram de grande valia naquele clima; na solidão da guarda noturna, ajudavam a manter a temperatura mais amena. O clima era mais frio perto das pedras da grandiosa muralha do castelo. Seu martelo de guerra tinha quase o dobro de seu peso, mas ainda assim podia ser facilmente empunhado por seus longos braços.
Os primeiros sons dos tambores chegaram como flechas, quebrando o silêncio sepulcral que perpetrava as primeiras horas da manhã. A incursão dos saxões havia chegado à capital, e esta seria a derradeira batalha, para o bem ou para o mal.
O vento gelado assobiava, como que alvoroçado pelo porvir, e trouxe o rumor dos milhares de passos marchando em uníssono. O tremer do chão o amedrontava, mas aquela não era a hora de se sentir assim. Manuseou o cabo do enorme martelo, e o pousou com suavidade no chão, para que este sentisse a terra úmida antes de se banhar no sangue dos que vinham. Esperaria ali.
A grande massa marchava resolutamente, mas os soldados das primeiras linhas pareciam inquietos; nenhum homem os esperaria sozinho diante dos portões do castelo. Não haveria emboscada alguma, mas alguns tiveram mesmo razão em temer o soldado solitário.
O silêncio reinou novamente quando os homens receberam a ordem de parar e centenas de milhares de olhos convergiram para aquele que os aguardava calmamente.
Seus cabelos vermelhos balançavam furiosamente, ainda que não se pudesse sentir qualquer fluxo de ar.
O exército avançou velozmente, e ele soube que era a hora de fazer o mesmo. Odin certamente lhe reservaria um lugar honrado em Valhalla depois de tamanha bravura.
Correu, arrastando seu martelo pela terra, e quando se encontrava a poucos metros dos inimigos, girou em seu próprio eixo, levando o gigante em suas mãos em um movimento ascendente...
Foi como se o fluxo uniforme do mar que avança sobre a areia tivesse sido quebrado pela teimosia de uma pedra que insiste em não se deixar levar, fazendo respingar em todas as direções até que a água por fim a envolva e passe por cima dela.
Nem sempre vencer uma batalha significa estar de pé em seu fim.

Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Fernanda

Somos dois desmemoriados, ela não lembra se já ouviu e eu não lembro se já contei.

Sábado, 10 de Maio de 2008

Pequenas Insanidades

Eu tenho uma coleção de coisas legais. Nela, tenho desde bolinhas de gude até cápsulas de bala, passando por facas de arremesso, um time de botão, bolas de malabarismo e até uma máscara de oxigênio. Minha coleção costuma melhorar meu humor, mas nunca abro a gaveta onde a guardo para observá-la. Meu quarto tinha um relógio de parede que é um disco de vinil, mas ele quebrou e não está mais lá. Qualquer um que entre no meu quarto, e veja meus certificados de Krav Magá, enquadrados e pregados na minha meia parede verde, deve achar que sou um assassino frio e calculista, e mal pode imaginar que não passo de um coração-mole. As pessoas, aliás, costumam me interpretar mal.
Já li muito, mas queria ter lido muito mais. Escrevi pouco, mas também queria ter escrito mais. Existem vários adjetivos que me definem bem, mas talvez o melhor seja "incompleto"; não quero explicar o porquê aqui.
Céu azul é bonito, mas só é bom com o tempo frio, se bem que eu também gosto de nuvens. Dizem que quem gosta de olhar para as nuvens é muito sonhador, e eu, de fato, sou; mas ao mesmo tempo, sou muito racional. Eu sei, isso é ambíguo; eu sou assim mesmo, quase esquizofrênico. O pior é que, em geral, não importa qual seja o que procuram em mim, ele nunca está.
Muitas vezes escrevo textos inteiros apenas para disfarçar as duas ou três frases soltas que são o que eu realmente queria dizer de início.

Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Elitismo

Minha língua sou eu; ou será, no mínimo, um complemento de mim; minha especial forma de estar no mundo e o local onde me percebo como um homem. Talvez seja o único ponto de ligação entre os tão diferentes que residem em mim.
Peço licença para transcrever uma fala de Ferreira Gullar, que mostra com exatidão o que sinto em relação à língua portuguesa: "Em outras linguagens sou quase eu mas ainda sou outro, (...) nas palavras, melhor me decifro e quase me entendo. Sem a língua portuguesa, minha fala, não me traduzo a ponto de me reconhecer. Sou mais próximo de mim e dos outros na língua que falo.".
Vejo-me obrigado a concordar integralmente, não só com o que diz Ferreira Gullar, mas também com Fernando Pessoa, que em seu escrito entitulado "Minha pátria é a língua portuguesa", diz que sente uma espécie de ódio pelos que escrevem mal. Honestamente, me sinto muito mais próximo dos portugueses ou dos angolanos, ainda que do outro lado do oceano, do que dos tantos vizinhos brasileiros que mal sabem escrever, como se estrangeiros fossem.
Talvez minha perspectiva possa parecer um pouco elitista, mas fico muito feliz de que o acordo ortográfico da língua portuguesa tenha sido assinado. Servirá então, para aproximar os irmãos de pátria, lusófonos, unidos pela língua portuguesa.
A minha nação.

Domingo, 4 de Maio de 2008

O Pirata da Perna-de-Pau

I wish I were smaller
Because I'm too tall
I'll build wooden legs
Or I shall fall.

Sábado, 5 de Abril de 2008

Prestação de Contas - I

Bem, eu pelo menos sempre gostei de me enveredar pelos labirintos mentais que levam alguém a escrever sobre algo. Reparei também que sempre que escrevo um texto, tento explicitar os motivos pelos quais me senti impelido a escrever, mas acabo não o fazendo.
Se este será mera informação, se possibilitará uma releitura mais aprofundada ou se irá desconstruir totalmente minhas idéias, espero que alguém me responda. De qualquer forma, pretendo fazer dessa idéia uma rotina, prestando contas de minhas inspirações de tempos em tempos.

Avisos - Nunca se sabe, tentei escrever um aviso no meu quarto para os pernilongos e formigas que vinham me importunando. Por alguns dias eu cheguei a realmente acreditar que tinha dado certo, o que obviamente, não se manteve por muito tempo.

À la Mendes Campos - Li a crônica de Paulo Mendes Campos, intitulada "Coisas Abomináveis", na qual ele faz uma lista de todas as coisas abomináveis existentes, e logo após, uma outra das coisas deleitáveis. O último item da segunda era "fazer a própria lista de coisas deleitáveis". Decidi seguir o conselho à risca, e fiz a minha própria.

Eis a Questão - Não, eu não estava com uma grande dúvida. Não sei por que cargas d'água, simplesmente gosto muito da frase.

A Estranha Perfeita - No auge do tormento causado pela menina portuguesa, decidi escrever mais diretamente sobre ela. Tirei uma tonelada dos ombros ao escrevê-lo.

A Moça - Minha primeira ficção, livremente inspirada, é claro, nela.

De Saramago para Niemeyer - Encontrei no jornal uma reprodução da carta que José Saramago, meu autor predileto, escreveu para Oscar Niemeyer, parabenizando-o pelos cem anos. Não consigo imaginar um presente melhor, por isso resolvi transcrevê-la integralmente.

Dentes - Sim, minha cadela me mordeu de verdade. Não, minha mão não ficou dilacerada. Sim, eu realmente fui o responsável pelo primeiro e único orgasmo da vida dela.

Guerras Particulares - Resolvi escrever sobre este tema ao acompanhar nos jornais as notícias sobre a guerra separatista no Chade. A idéia foi tentar alimentar um pouco meu lado militarista, mas acho que não obtive muito sucesso.

Desatino - Ah, sempre me achei meio louco. Daí a escrever sobre a própria loucura foi um passo.

L'Enfer - Finalmente, o texto que enterrou os restos da menina portuguesa. Onde enterrei, não faço idéia, só sei que foi fora de mim.

Sábado, 29 de Março de 2008

L'Enfer

Ela possuía uma elegância altiva e graciosa, que incidia ora nos olhos maliciosos, ora no sorriso provocador. Os cabelos castanho-claro se soltavam irregularmente pela cabeça, revelando exatamente as partes certas do rosto tremeluzente.
A despeito do semblante zombeteiro, conversava de forma acanhada, pronunciando cuidadosamente cada palavra, como se duvidasse que a delicadeza lusa do falar pudesse desconcentrar o ouvinte.
O riso inocente e sincero vinha sem aviso, como se, timidamente, explodisse, revelando todo o poder incontido.
Os encantos do rosto se enveredavam pelo corpo perfeito; pelas promessas que as sinuosidades, que os seios fartos acenavam, de prazer desmedido e irrestrito, onipotente. As pernas longas e grossas se movimentavam exalando uma elegância inerente às corças, em uma espécie de aura, petrificante, estarrecedora.
Não consigo equiparar a sensação que era fazê-la rir, segurar suas mãos frágeis ou ouvir sua voz doce, emoldurada pelo sorriso aberto.
Algum dia, e espero que em breve, outra haverá de tomar seu lugar de musa, de inspiração.

Sábado, 22 de Março de 2008

Desatino

Hospícios abrigam loucos, é claro - qualquer um diria - Aquele em particular, entretanto, abrigava reis. Majestades de mundos particulares, confortavelmente entorpecidos e entretidos com suas realidades manipuladas.
Era uma casa especial, onde cada quarto se transformava em um palácio, banquetes imensos cabiam em um pequeno prato e as maiores festas se davam em total silêncio. Não havia lugar que fosse ao mesmo tempo mais feliz e mais triste do que aquele.
Partamos do pressuposto de que este que vos escreve é também habitante do local, pois os ecos que existem dentro dos gigantescos muros não chegam ao lado exterior, e não haveria assim qualquer outra forma de escrever sobre este assunto.
Flutuando num eterno limiar, o insano faz um caminho contrário ao da sociedade. Enquanto as pessoas vivem em uma contínua contenção de sentimentos, o louco tem suas debilidades explicitadas, o que não deixa de ser, na verdade, uma perspectiva libertadora.
Talvez sejam apenas mais clarividentes do que nós , e por isso desistem de tentar viver na loucura do mundo normal.
Os piores fantasmas são os que assombram os loucos.
São assustadoramente reais.

Domingo, 9 de Março de 2008

Elas Têm Sempre Razão

Era uma vez um homem, um homem ainda jovem. Ele não era bonito como esses modelos fotográficos, mas tinha lá suas graças. Conseguia manter uma boa forma física, contudo, seu corpo também não chegava a ser um primor. Reservado, não era dado a extravagâncias e aparentava ser mais velho do que realmente era. É claro que, como qualquer um, as vezes ansiava por alguns desatinos, mas ninguém compreendia isso.
Indo direto ao ponto, o coitado não servia para entreter mulheres que só pretendiam se divertir, ou ao menos servia, só que ninguém percebia.
Ao mesmo tempo em que não queria fingir ser algo que não era, também não obtinha o que desejava. Essa era sua sina.
Talvez um dia, na idade em que começamos a pensar em compromissos mais sérios, venha a receber o devido valor, quem sabe até por algumas das que alguns anos antes só queriam se divertir. Lá, ele provavelmente irá querer aproveitar a tão esperada oportunidade e irá apenas se distrair.
E assim as mulheres passam a ter razão. Se os homens não são todos iguais, um dia passam a ser.

Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

Guerras Particulares - III

Dezenove de janeiro.

Tudo está perdido. Há dias que não conseguimos nenhum tipo de vitória. Nossas últimas linhas de tanques fracassaram e estamos defendendo o palácio presidencial. Temos pouco mais de 30 homens, e um tanque barricado na entrada principal.
Não sabemos quando virá o ataque final, não sabemos se sobreviveremos a ele. A única certeza que temos é a de que lutaremos até a última bala.

Eu gostaria que um dia meu filho pudesse ler meu diário, ler minhas últimas palavras, para que assim soubesse que o pai caiu, mas de forma honrada, lutando por algo em que acreditava.

Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

Guerras Particulares - II

Quatorze de janeiro.

A cidade está partida. Os homens leais ao presidente já não passam de três mil, e dezenas morrem a cada hora. Os corpos espalhados pelas ruas já se amontoam, e criam uma cena de horror que faz Ruanda parecer uma história infantil. Perdemos algumas quadras e algumas de nossas linhas de tanques já foram desmanteladas. Em breve estaremos defendendo o palácio presidencial.

Seguindo ordens ou não, batalhar pela própria vida altera qualquer perspectiva. Fica muito simples ser cruel. Eu que temia tanto tirar a vida de alguém, hoje faço com a mesma facilidade com a qual respiro. Acredito que a iminência de receber um tiro na cabeça coloque minha moral em segundo plano.

Todas as dúvidas que eu tinha a respeito da minha paternidade se dissiparam frente à possibilidade de morrer.

Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008

Guerras Particulares - I

Onze de janeiro.

Em breve o golpe final será desferido. A ininterrupta batalha pela capital já dura 17 dias de fogo cruzado e as forças rebeldes já ocupam todo o lado oeste da cidade. Temo que minhas tropas não estejam preparadas para aguentá-lo. Estamos em menor número, e já não recebemos mais ajuda internacional. Ironicamente cercados, por apenas um lado. Decidi relatar algumas memórias neste diário, pois pressinto que serão as últimas. Nossos tanques ainda mantém os amotinados a uma certa distância, e talvez sejam nossa única salvação.

Passei toda a minha vida militar executando tarefas burocráticas, quase sempre atrás de uma mesa de escritório, e essa é a primeira vez que me envolvo com a violência de uma guerra. Nos primeiros dias de batalha, tive muito medo do momento no qual teria de atirar em alguém, que chegou como um soco no estômago. É estranho pensar que acabei com a vida do filho de alguém, quando eu mesmo espero o nascimento do meu. Que direito posso eu ter a esperar um filho, quando tiro a vida dos de tantos.

Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

Irresgatável

Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata. - Carlos Drummond de Andrade.

Na verdade durou mais do que algumas frações de segundo, mas se petrificou da mesma forma, irresgatável. Irresgatável. Irresgatável porque se não por meio do acaso, já não existem mais possibilidades de encontrá-la.
Depois de escrever acerca dos desencontros pelos quais tenho passado desde sua partida, decidi tentar, e cheguei, de fato, a acreditar que conseguiria. Recebi uma negativa bem concreta, que não deixou margem para dúvidas e me fez entrever que talvez o melhor a fazer, até por falta de opções, seja deixar a lembrança onde ela está, petrificada. Talvez fique assim até que eu a encontre, ou então, até que alguém tome seu lugar de musa e me resgate dessa eternidade.

Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008

Dentes

Pois então, agora, toda vez que vierem me perguntar sobre a minha cachorra na rua, vou apresentá-la assim:

— Olha, que bonitinha, parece um lobinho de pelúcia! Ela morde?
— Morde.
— Ah, jura? É brincadeira né? Uma cadelinha tão linda não pode morder de verdade...
— Não, é sério, ela morde mesmo. Principalmente quando está recebendo afagos. Eu vivo dizendo que ela é meio tã-tã, mas ninguém acredita. Na verdade nem eu acreditava no que dizia, até o dia em que ela me mordeu. Logo eu, o responsável pelo primeiro e único orgasmo da vida dela.
— Orgasmo, como assim menino, você bolinou a cachorra?
— Não, claro que não. Apenas deixei ela se fartar com a minha perna. No fim, ela já estava com a lingüinha caída do lado da boca, de tanto esforço que fez. Depois, quando terminou, se esparramou toda no chão e dormiu.
— Nossa, que legal hein. Tenho que admitir, você é bem excêntrico.
— Excêntrico, eu? Coitada, não chega nem a encostar as partes íntimas em mim, não custava nada deixar.
— Hum, está certo então, se você diz. Mas ela te mordeu?
— Mordeu, bem na hora em que eu estava fazendo carinho nela (mostro a mão dilacerada toda enfaixada).
— Ah, sei, er, certo, que legal então, acho que já vou indo, fica para a próxima, é, o carinho que eu ia fazer nela, tá bem? Tá certo, tchau.
— Claro claro, fique à vontade. Até mais.

Escrevi este texto todo com a mão esquerda, já que a outra está semi-inutilizada devido ao machucado que a minha cachorra me deu de presente, embrulhado nos pequeninos caninos dela.

Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

Desencontros

Continuamente me percebo pensando no que faria se encontrasse minha musa naquele exato momento, estivesse onde estivesse. As vezes, na janela, tento imaginar se teria tempo de descer as escadas antes de perdê-la na primeira esquina. Do ônibus ou do metrô, se conseguiria saltar e voltar sem que ela já estivesse por demais afastada. É quase como se eu pudesse trazê-la para mais perto apenas com a vontade de ouvir sua voz mais uma vez.
É claro que a possibilidade de que eu ainda venha a encontrá-la algum dia é quase nula, e a não ser que eu resolva procurá-la, tudo deverá continuar como está. Mas como quem escreve sou eu, e este texto segue para onde eu quiser, vou apenas elucidar melhor a gravidade da questão.
Partamos do pressuposto de que eu consiga encontrá-la. Existiria ainda a chance de ela sequer se lembrar de mim, e para completar, com os devaneios à parte, haveria também a (imensa) possibilidade de eu descobrir que ela é totalmente diferente do que eu imaginei, para pior, ou para melhor.
E agora?

Domingo, 30 de Dezembro de 2007

Paliativo

Difícil imaginar que na falta de uma fotografia da amada, alguém poderia se contentar com a de uma, digamos, quase sósia. É certo que a quase sósia não chega a ser uma cópia exata, mas ainda assim as semelhanças são surpreendentes, quase incríveis.
Tê-la tão perto, e tão real, tão parecida e ao mesmo tempo tão diferente, traz de volta lembranças, palavras e olhares que inevitavelmente se enfraqueceriam e acabariam perdidos.
Perceber tantos traços daquele rosto altivo, que parecia sempre conter um sorriso implícito, na face de outra mulher é uma experiência no mínimo estranha, mas que de certa forma, ajuda a diminuir o tamanho de um oceano...

Domingo, 23 de Dezembro de 2007

De Saramago Para Niemeyer

"Nós, portugueses, nós, brasileiros (acabo de comprová-lo no Aurélio) não cumprimos anos, fazemo-los. Já se pensou no bonito que é mexer no tempo, empurrá-lo, estendê-lo, empurrá-lo, e a isto chamo eu vida, e de repente começar e receber e-mails, cartas, chamadas telefónicas de parentes e amigos que nos dizem: "Parabéns, mais um ano". E nós respondemos: "Bom trabalho me deu, mas aí está, feito". Aí estão agora estes cem, feitos por Oscar Niemeyer, amassados de todas as esperanças e razões do mundo, entregues nas mãos do futuro, com estas palavras de promessa: "Aqui estive, aqui estou, aqui me encontrarão sempre". Querido Oscar, até ao próximo ano."

De um gênio, para outro.

Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007

A Moça

O céu estava cheio de nuvens, que pareciam mais algodão do que qualquer coisa e ensaiavam toda sorte de alvas formas no azul da manhã ensolarada. Ela olhava para o alto, tentando achar alguma que se parecesse com uma torta de limão. Ela adorava tortas de limão.
A sombra da árvore na qual descansava fazia um contraste inesperado em seu rosto, e apenas uma faixa de luz cobria seus olhos. Era impossível não notar a escuridão de seus cabelos, que caíam docemente pelos lados do rosto até quase tocar os ombros. De fato, ninguém deixava de notar. Todos que passavam se hipnotizavam com sua visão e alguns chegavam até a tropeçar com a boca aberta. Ela lembrava uma dessas atrizes de antigamente, que no esplendor de sua beleza parecem não notar os olhares que recebem.
Vestia um vestido branco, com bolinhas verdes, que pareciam ser uma promessa das sinuosidades e relevos que aquele corpo possuía enquanto realçadas pelo verde forte do gramado.
Seus lábios cor-de-rosa se moviam bem devagar, como se cantasse apenas para si, de forma que ficava ainda maior a curiosidade dos passantes.
Nunca se soube o que esperava ali debaixo daquela árvore, mas o que quer que fosse, perdeu a graça. Ela se levantou, e se já atraía atenção sentada olhando para o céu, com seu andar elegante de corça até o trânsito parou para olhar.
Foi-se, com o olhar perdido por não ter achado sua nuvem de limão.

Sábado, 8 de Dezembro de 2007

Inocência Divina

Se eu fosse algum tipo de Deus (sim, caro leitor religioso, eu as vezes blasfemo e me imagino como Deus), apagaria em primeiro lugar toda forma de governo, órgão público ou organização privada, que mantivesse algum tipo de controle sobre o homem. Isso incluiria escolas, universidades, empresas, delegacias, hospitais e até partidos políticos. Nem as fronteiras seriam poupadas, nacionais, regionais ou continentais.
Depois disso, acabaria com qualquer tipo de manifestação cultural, religiosa ou social, com os limites morais e qualquer coisa mais que limitasse a profundidade infinita que possuímos dentro de nós.
Ao terminar de usar minha borracha divina, sobrariam apenas os homens, sozinhos no mundo e livres para criar e pensar.
Com minha onisciência inerente a qualquer deus, veria então os homens, mesmo livres, fazendo e recriando tudo da mesma forma. Tomando as mesmas decisões erradas.
Assim eu entenderia, que o homem não tem a capacidade de se gerir coletiva ou individualmente, que precisa de algo que o controle, algo em que acreditar para não ter de pensar na dor que é viver.
Veria também que toda a baixeza e mesquinharia que é espalhada pelo mundo se faz necessária, para que do meio dela, possam nascer as virtudes grandiosas que são empunhadas por alguns indivíduos especiais que de vez em quando aparecem por aí.
Finalmente, me daria conta de que não adianta apagar as coisas que regem o homem e dar-lhe a liberdade. O que de fato adiantaria, seria apagar os próprios homens, deixando um ou outro escolhido, para que esses pudessem refazer a humanidade. Talvez até criar uma espécie nova.
O homem é o ser perfeito para se lutar por liberdade, mas é o pior de todos quando a questão é aproveitar as que são conquistadas.
Numa situação hipotética, onde o universo fosse totalmente explorado e centenas de planetas com vida inteligente já tivessem sido descobertos, nossa existência poderia talvez ganhar um significado concreto. Seríamos mercenários, contratados para lutar pela liberdade de outros planetas oprimidos por raças mais fortes. Nós faríamos o que sabemos de melhor, e os contratantes poderiam aproveitar sua liberdade da forma que melhor lhes apetecesse depois que a conquistássemos.
Não quis perder muito tempo pensando nessa possibilidade de ser Deus, mas acho que seria mais ou menos assim minha experiência como Ele, bem curta.

Terça-feira, 27 de Novembro de 2007

A Estranha Perfeita

Nunca acreditei em amores à primeira vista, até sofrer um. Eu digo sofrer porque para um tímido, se apaixonar por uma desconhecida é sempre prenúncio de sofrimentos; seja pela falta de coragem que implica em ter de deixar o sentimento de lado, seja por ter de enfrentar a timidez para tornar a tal desconhecida uma conhecida.
De início, o que me pareceu estranho foi o fato de que não conseguia tirar os olhos dela, mesmo sem ter notado qualquer tipo de beleza extraordinária. Quinze minutos depois, eu tinha a certeza de que já não havia nada de mais belo em todo o mundo, e a culpa de não ter notado tamanha beleza estava no meu problema de vista.
Cabe aqui a pergunta: A culpa foi realmente do meu problema de visão, ou meu ideal de beleza já havia sucumbido àquela paixão e se adaptado de forma que se encaixasse exatamente à imagem dela? Ambas as possibilidades procedem; afinal de contas, ela possuía alguns (muitos) atributos, os quais não irei especificar, que já faziam parte dos meus padrões ideais; mas também possuía outros, que antes dela eram o oposto do que eu gostava mas que curiosamente passaram a ser tudo que eu sempre quis.
Eu não sou exatamente um especialista em esconder as coisas que sinto; com isso, é claro que eventualmente ela acabou percebendo o tanto que eu a observava. Isso me obrigou a apressar o processo de criação de coragem, antes que a brincadeira de trocar olhares perdesse a graça e eu ficasse a ver navios.
Depois de uma semana de grandes oportunidades desperdiçadas e muito esforço, acabei por conseguir conhecê-la. Não foi da forma como tinha imaginado, mas eu tinha conseguido e era isso que importava. Os pequenos deslizes da conversa poderiam ser consertados na semana seguinte, talvez até usados como pretexto para convidá-la para tomar um sorvete ou algo parecido.
Tudo teria seguido bem, se ela não tivesse voltado para Portugal no fim de semana. (Esqueci de mencionar que ela é portuguesa). Quando a ouvi falando pela primeira vez, me lembro de ter pensado que dali, não a deixaria mais escapar de jeito algum.
Chegamos agora ao ponto mais importante da história: Ela está a um oceano de distância e eu não sei nada mais do que seu primeiro nome. Qualquer tentativa de procurá-la seria no mínimo inútil, visto que o país tem aproximadamente 93 mil quilômetros quadrados de área e mais de 10 milhões de habitantes. Com ela tão longe, a saudade fez com que ela se transformasse na, até então, mulher da minha vida, ainda que apenas uma quase estranha pela qual me apaixonei inadvertidamente. A possibilidade de que eu venha a conhecer seus defeitos e possa saber se realmente teríamos dado certo é quase inexistente. Ela não está aqui para contradizer meus devaneios. A única portuguesa da qual posso me lembrar é da que está em meus sonhos. Como esquecer alguém assim?
Acabei ficando pelo Brasil mesmo, sem saber o que fazer com a saudade que vinha me atormentar de vez em quando. Resolvi construir um puxadinho no ponto mais afastado de mim e toda vez que a lembrança vem, em vez de expulsá-la a tapas e pontapés, deixo-a entrar e indico logo seu referido cômodo.
Amores à primeira vista nos levam por caminhos muito estranhos.

Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

Eis a Questão

Caso ou compro uma bicicleta?

Sábado, 24 de Novembro de 2007

À la Mendes Campos

Coisas Deleitáveis

Fazer barba ouvindo música clássica; a bomba de creme e o capuccino do forte copacabana; sotaque de portuguesas, mineiras e gaúchas; cafuné de avó, escrever em máquina de escrever; tiro ao alvo; atirar com arco-e-flecha; arremessar facas; cachorro que faz festa pra quem chega; andar de avião; andar de submarino; andar em navio de guerra; andar em tanque de guerra; pular de pára-quedas; brisa da madrugada; água de filtro de barro; andar de cavalo; cantar no chuveiro; jogar videogame; jogar sinuca; jogar taco; remar na lagoa de madrugada; cavar buracos com pá e carrinho de mão; sorvete com conversa do motherfucker; fotos antigas de família; tentar adivinhar o cavalo vencedor do páreo; cinema na última sessão; demolir paredes; achar dinheiro; pisar descalço em grama molhada; banho de mangueira; escalar árvores; balanço com corda comprida; aprender malabarismo; dar autógrafos; chapéus que escondem a careca; assistir máquina de lavar batendo roupa; deslizar no sabão; colocar roupas dos pais quando ainda somos crianças; viagens inesperadas; viagens ansiosamente esperadas; jogar truco com os velhinhos da praça; café da manhã de hotel; vitória em final de campeonato no maracanã; sombra de árvore; pescar com a linha na mão; cheiro de chuva no mato; mudar para apartamento maior; amigos que nos lembram de histórias divertidas; matar aula; passear por livrarias; caixa de ferramentas; descobrir uma frase que nos revele; se arrumar para uma grande festa de gala; chegar em casa e colocar o pijama depois da grande festa de gala; imaginar o que faria se ganhasse na loteria; a cena do tango em "perfume de mulher"; tirar passaporte de outro país; festa à fantasia; passar de faixa em arte marcial; primeiro beijo, carinho e abraço na nova namorada; ter uma namorada; jogar botão; usar máscara de oxigênio; ligar a lanterna quando acaba a luz; saber ler partituras; montar miniaturas de lego; conseguir fazer flexão de braços com um braço só; ver a vizinha trocando de roupa pelo binóculo; apresentação da banda predileta; menina bonita com vestido de bolinha; ver francesas usando sobretudo, cachecol e boina em uma fria noite parisiense; encontrar o objeto procurado no escuro.

Terça-feira, 20 de Novembro de 2007

Aviso

"Doravante à colocação deste aviso, ficam terminantemente proibidos o trânsito e a permanência de formigas e pernilongos neste recinto. Os desobedientes serão sumariamente executados".

No meu quarto mando eu.

Coincidências

"And when I feel, fair creature of an hour!
That I shall never look upon thee more, (...)
Of the wide world I stand alone, and think." - John Keats.

"Quando sinto que nunca mais hei de te ver,
Formosa criatura de um momento ideal! (...)
Do vasto mundo eu fico só, a meditar." John Keats, na tradução.

Chega a ser quase incrível, como as vezes certas coisas que lemos condizem perfeitamente com momentos pelos quais passamos em nossas vidas. Ainda escreverei mais sobre o assunto.

Inspiração

"Minha poesia nasce do espanto. De repente algo me revela um lado da realidade que nunca tinha percebido e a partir daí escrevo." - Ferreira Gullar

Gostaria de ter tal brilhantismo, mas fico apenas no perceber um lado da realidade até então despercebido. Daí a escrever algo que tenha algum valor já é uma outra história. Vejamos onde isso vai dar.