Onde Reina o Seu Silêncio?
– Quem procuras não está – respondeu. – Mas como aqui é a casa dos que não estão, pode entrar.
Domingo, 31 de Maio de 2009
O Inferno Nosso de Cada Dia
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Domingo, 3 de Maio de 2009
Crônica de uma Lágrima Inacabada
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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009
E Do Amanhã, O Que Será?
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Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009
O Homem da Casa
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Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009
Literatura Russa
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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009
De Joelhos
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Sábado, 17 de Janeiro de 2009
Para Fora
Eu lhe quero bem longe, e esse querer me faz feliz. Seu silêncio quer sair, sair do meu peito, me envolver, mas eu luto, esperneio e o mantenho aprisionado. Eu choro.
Quero sentir essa dor que prova que estou viva, quero que ela vá embora. Quero ser ele, quero ser você. Quero ser ela de novo. Quero ser eu. Não quero mais ser. O silêncio me quer, e esse querer me faz triste.
Quero tudo ao contrário, quero encontrar quem está dentro de mim. Cansei de descobrir os que não estão, conversar com quem não existe. Quero me arrancar de dentro do peito, fazer disso um alguém. Quero ser um. Inteiro.
Quero alguém para dividir, quero ser dois, e de dois fazer mais um, quero ser três, e depois quatro. Quero ser um, mas quero deixar de encontrar partes minhas dentro de mim, quero partes de mim dentro dos outros. Quero me encontrar todo dia e sorrir.
Quero voltar no tempo, quero fazê-lo correr, viver de novo e não viver.
Quero abrir todos os silêncios que já guardei, fazê-los falar.
Quero sentir menos. Quero sentir mais.
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Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008
Reine Sobre Mim
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Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008
O Apanhador de Sonhos
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Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008
Favor Avisar
Favor desprezar os desabafos e agradecimentos, sem valor literário.
Favor pular diretamente para a literatura.
Favor ignorar o fato de que não tempo para postar.
Favor ter paciência.
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Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008
Médias Insanidades
Se Deus existe, Ele não gosta de mim, por isso prefiro acreditar que não. Se um dia eu precisar prestar contas pela descrença, tenho certeza de que minhas razões serão entendidas. A ignorância é uma benção, mas eu não tive a sorte de recebê-la. A falta de beleza é libertadora, mas eu também não ganhei uma dose adequada, para poder não me ater à exigências, estúpidas sim, mas das quais não consigo me livrar. Vejam bem, não estou dizendo que me acho bonito, minhas inseguranças não me permitiriam escrever algo tão presunçoso.
Uma vez abraçei meu pai, e começei a chorar. Todos acharam que eu chorava por um certo motivo, mas a verdade é que chorei pelo abraço. Levei quatro anos para contar isso a ele.
As vezes me apaixono em apenas um segundo, mas a recíproca não é verdadeira. O problema de verdade, aliás, é quando me apaixono em um segundo e não consigo mais desapaixonar.
Meus amores são inocentes, e as pessoas costumam ser avoadas demais para perceber que seus preâmbulos podem fazer doer.
O que eu tenho de melhor está além do que se vê (ou lê).
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Terça-feira, 5 de Agosto de 2008
Cinzas
– Isto me lembra algo. Acho que são os tantos carros, atracados no trânsito, em seu mar de luzes vermelhas e brancas que dançam por toda a vista, hipnotizantes.
– Isto me lembra algo. Mas não são os carros; é esta brisa fresca, que me alivia o calor do rosto e seca o suor que goteja pela face, volteando-se pelas curvas de meu braço.
– Isto me lembra algo. Talvez sejam os carros, talvez seja o vento, mas ainda mais, são as incontáveis janelas acesas que chamam meu olhar curioso.
– Isto me lembra algo, mas não sei o que é.
Existem lembranças e lembranças, algumas se perdem, outras ficam.
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20:30
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Domingo, 3 de Agosto de 2008
Dadaísmo Literário
Sabe que outro dia inventei um carro? Ele voava, mas pensando bem, o que voa é trem, então ela pode dizer que inventei um submarino.
Cansei, texto velho e sem sentido, não sei de verdade o que é dadaísmo.
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Segunda-feira, 21 de Julho de 2008
Terça-feira, 15 de Julho de 2008
O Último Concerto
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Segunda-feira, 23 de Junho de 2008
Dualidade
Ao sentir-se despertando ao lado de uma pessoa que não existe, abriria os olhos?
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Terça-feira, 17 de Junho de 2008
Infinitamente
E assim foi decretada a infinita ditadura do silêncio.
"É silêncio o que se deve ouvir, e é pelo silêncio que se deve calar", e assim se fez. Se fez em meio à falta, um novo alfabeto, no qual as probabilidades do sentir não seriam mais refreadas pelas curvas dos labirintos da palavra; no qual o corpo humano e suas delimitações carnais não se faria mais necessário. Nos ergueríamos do pó acumulado pelas décadas, e como deveríamos ser, nos transformaríamos em semi-deuses; intangíveis, impalpáveis.
Que ouçamos os olhares; "o barulho que o vento faz quando balança as árvores da praça"; a chuva que rola pelo gramado na tempestade, que dança seu balé na contraluz; o vento que assobia sinfonias nas janelas, e promete um dia nos levar; o abraço apertado; o afago no rosto, que percorre todo o corpo, terno; o beijo quente; a respiração sôfrega. O calor do corpo molhado.
Neste novo governo não haverá princípios ambíguos nem tergiversações fugidias.
Haverá, pois, paixão.
Bastante, fortemente e totalmente inspirado no texto "Um Minuto de.", de Jana Cambuí, do Infinito Público. Acho que só me resta agradecer pela autorização, espero que ela goste.
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Rômulo Wehling
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Sábado, 7 de Junho de 2008
Quinta-feira, 29 de Maio de 2008
As Pequenas Memórias Francesas
Quero morar em um edifício que tenha as paredes exteriores cobertas por plantas.
Pode não parecer, mas virar a cabeça de um lado para o outro seguindo uma bolinha de tênis é mágico.
Parei em todas as livrarias que encontrei.
Não vi papel algum no chão.
Esperei por trinta minutos uma loja de instrumentos musicais abrir, mas o dono não apareceu.
É apaixonante ver uma francesa usando sobretudo, cachecol e chapéu.
Ah sim, e elas são realmente lindas.
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Sábado, 24 de Maio de 2008
A Morte
Seus longos cabelos vermelhos flamejavam, e eram de grande valia naquele clima; na solidão da guarda noturna, ajudavam a manter a temperatura mais amena. O clima era mais frio perto das pedras da grandiosa muralha do castelo. Seu martelo de guerra tinha quase o dobro de seu peso, mas ainda assim podia ser facilmente empunhado por seus longos braços.
Os primeiros sons dos tambores chegaram como flechas, quebrando o silêncio sepulcral que perpetrava as primeiras horas da manhã. A incursão dos saxões havia chegado à capital, e esta seria a derradeira batalha, para o bem ou para o mal.
O vento gelado assobiava, como que alvoroçado pelo porvir, e trouxe o rumor dos milhares de passos marchando em uníssono. O tremer do chão o amedrontava, mas aquela não era a hora de se sentir assim. Manuseou o cabo do enorme martelo, e o pousou com suavidade no chão, para que este sentisse a terra úmida antes de se banhar no sangue dos que vinham. Esperaria ali.
A grande massa marchava resolutamente, mas os soldados das primeiras linhas pareciam inquietos; nenhum homem os esperaria sozinho diante dos portões do castelo. Não haveria emboscada alguma, mas alguns tiveram mesmo razão em temer o soldado solitário.
O silêncio reinou novamente quando os homens receberam a ordem de parar e centenas de milhares de olhos convergiram para aquele que os aguardava calmamente.
Seus cabelos vermelhos balançavam furiosamente, ainda que não se pudesse sentir qualquer fluxo de ar.
O exército avançou velozmente, e ele soube que era a hora de fazer o mesmo. Odin certamente lhe reservaria um lugar honrado em Valhalla depois de tamanha bravura.
Correu, arrastando seu martelo pela terra, e quando se encontrava a poucos metros dos inimigos, girou em seu próprio eixo, levando o gigante em suas mãos em um movimento ascendente...
Foi como se o fluxo uniforme do mar que avança sobre a areia tivesse sido quebrado pela teimosia de uma pedra que insiste em não se deixar levar, fazendo respingar em todas as direções até que a água por fim a envolva e passe por cima dela.
Nem sempre vencer uma batalha significa estar de pé em seu fim.
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Rômulo Wehling
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Sexta-feira, 16 de Maio de 2008
Fernanda
Somos dois desmemoriados, ela não lembra se já ouviu e eu não lembro se já contei.
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Sábado, 10 de Maio de 2008
Pequenas Insanidades
Já li muito, mas queria ter lido muito mais. Escrevi pouco, mas também queria ter escrito mais. Existem vários adjetivos que me definem bem, mas talvez o melhor seja "incompleto"; não quero explicar o porquê aqui.
Céu azul é bonito, mas só é bom com o tempo frio, se bem que eu também gosto de nuvens. Dizem que quem gosta de olhar para as nuvens é muito sonhador, e eu, de fato, sou; mas ao mesmo tempo, sou muito racional. Eu sei, isso é ambíguo; eu sou assim mesmo, quase esquizofrênico. O pior é que, em geral, não importa qual seja o que procuram em mim, ele nunca está.
Muitas vezes escrevo textos inteiros apenas para disfarçar as duas ou três frases soltas que são o que eu realmente queria dizer de início.
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Rômulo Wehling
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Segunda-feira, 5 de Maio de 2008
Elitismo
Peço licença para transcrever uma fala de Ferreira Gullar, que mostra com exatidão o que sinto em relação à língua portuguesa: "Em outras linguagens sou quase eu mas ainda sou outro, (...) nas palavras, melhor me decifro e quase me entendo. Sem a língua portuguesa, minha fala, não me traduzo a ponto de me reconhecer. Sou mais próximo de mim e dos outros na língua que falo.".
Vejo-me obrigado a concordar integralmente, não só com o que diz Ferreira Gullar, mas também com Fernando Pessoa, que em seu escrito entitulado "Minha pátria é a língua portuguesa", diz que sente uma espécie de ódio pelos que escrevem mal. Honestamente, me sinto muito mais próximo dos portugueses ou dos angolanos, ainda que do outro lado do oceano, do que dos tantos vizinhos brasileiros que mal sabem escrever, como se estrangeiros fossem.
Talvez minha perspectiva possa parecer um pouco elitista, mas fico muito feliz de que o acordo ortográfico da língua portuguesa tenha sido assinado. Servirá então, para aproximar os irmãos de pátria, lusófonos, unidos pela língua portuguesa.
A minha nação.
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Rômulo Wehling
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Domingo, 4 de Maio de 2008
O Pirata da Perna-de-Pau
I wish I were smaller
Because I'm too tall
I'll build wooden legs
Or I shall fall.
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Rômulo Wehling
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Sábado, 5 de Abril de 2008
Prestação de Contas - I
Se este será mera informação, se possibilitará uma releitura mais aprofundada ou se irá desconstruir totalmente minhas idéias, espero que alguém me responda. De qualquer forma, pretendo fazer dessa idéia uma rotina, prestando contas de minhas inspirações de tempos em tempos.
Avisos - Nunca se sabe, tentei escrever um aviso no meu quarto para os pernilongos e formigas que vinham me importunando. Por alguns dias eu cheguei a realmente acreditar que tinha dado certo, o que obviamente, não se manteve por muito tempo.
À la Mendes Campos - Li a crônica de Paulo Mendes Campos, intitulada "Coisas Abomináveis", na qual ele faz uma lista de todas as coisas abomináveis existentes, e logo após, uma outra das coisas deleitáveis. O último item da segunda era "fazer a própria lista de coisas deleitáveis". Decidi seguir o conselho à risca, e fiz a minha própria.
Eis a Questão - Não, eu não estava com uma grande dúvida. Não sei por que cargas d'água, simplesmente gosto muito da frase.
A Estranha Perfeita - No auge do tormento causado pela menina portuguesa, decidi escrever mais diretamente sobre ela. Tirei uma tonelada dos ombros ao escrevê-lo.
A Moça - Minha primeira ficção, livremente inspirada, é claro, nela.
De Saramago para Niemeyer - Encontrei no jornal uma reprodução da carta que José Saramago, meu autor predileto, escreveu para Oscar Niemeyer, parabenizando-o pelos cem anos. Não consigo imaginar um presente melhor, por isso resolvi transcrevê-la integralmente.
Dentes - Sim, minha cadela me mordeu de verdade. Não, minha mão não ficou dilacerada. Sim, eu realmente fui o responsável pelo primeiro e único orgasmo da vida dela.
Guerras Particulares - Resolvi escrever sobre este tema ao acompanhar nos jornais as notícias sobre a guerra separatista no Chade. A idéia foi tentar alimentar um pouco meu lado militarista, mas acho que não obtive muito sucesso.
Desatino - Ah, sempre me achei meio louco. Daí a escrever sobre a própria loucura foi um passo.
L'Enfer - Finalmente, o texto que enterrou os restos da menina portuguesa. Onde enterrei, não faço idéia, só sei que foi fora de mim.
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Rômulo Wehling
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Sábado, 29 de Março de 2008
L'Enfer
A despeito do semblante zombeteiro, conversava de forma acanhada, pronunciando cuidadosamente cada palavra, como se duvidasse que a delicadeza lusa do falar pudesse desconcentrar o ouvinte.
O riso inocente e sincero vinha sem aviso, como se, timidamente, explodisse, revelando todo o poder incontido.
Os encantos do rosto se enveredavam pelo corpo perfeito; pelas promessas que as sinuosidades, que os seios fartos acenavam, de prazer desmedido e irrestrito, onipotente. As pernas longas e grossas se movimentavam exalando uma elegância inerente às corças, em uma espécie de aura, petrificante, estarrecedora.
Não consigo equiparar a sensação que era fazê-la rir, segurar suas mãos frágeis ou ouvir sua voz doce, emoldurada pelo sorriso aberto.
Algum dia, e espero que em breve, outra haverá de tomar seu lugar de musa, de inspiração.
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Sábado, 22 de Março de 2008
Desatino
Era uma casa especial, onde cada quarto se transformava em um palácio, banquetes imensos cabiam em um pequeno prato e as maiores festas se davam em total silêncio. Não havia lugar que fosse ao mesmo tempo mais feliz e mais triste do que aquele.
Partamos do pressuposto de que este que vos escreve é também habitante do local, pois os ecos que existem dentro dos gigantescos muros não chegam ao lado exterior, e não haveria assim qualquer outra forma de escrever sobre este assunto.
Flutuando num eterno limiar, o insano faz um caminho contrário ao da sociedade. Enquanto as pessoas vivem em uma contínua contenção de sentimentos, o louco tem suas debilidades explicitadas, o que não deixa de ser, na verdade, uma perspectiva libertadora.
Talvez sejam apenas mais clarividentes do que nós , e por isso desistem de tentar viver na loucura do mundo normal.
Os piores fantasmas são os que assombram os loucos.
São assustadoramente reais.
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Rômulo Wehling
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Domingo, 9 de Março de 2008
Elas Têm Sempre Razão
Indo direto ao ponto, o coitado não servia para entreter mulheres que só pretendiam se divertir, ou ao menos servia, só que ninguém percebia.
Ao mesmo tempo em que não queria fingir ser algo que não era, também não obtinha o que desejava. Essa era sua sina.
Talvez um dia, na idade em que começamos a pensar em compromissos mais sérios, venha a receber o devido valor, quem sabe até por algumas das que alguns anos antes só queriam se divertir. Lá, ele provavelmente irá querer aproveitar a tão esperada oportunidade e irá apenas se distrair.
E assim as mulheres passam a ter razão. Se os homens não são todos iguais, um dia passam a ser.
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Rômulo Wehling
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Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008
Guerras Particulares - III
Tudo está perdido. Há dias que não conseguimos nenhum tipo de vitória. Nossas últimas linhas de tanques fracassaram e estamos defendendo o palácio presidencial. Temos pouco mais de 30 homens, e um tanque barricado na entrada principal.
Não sabemos quando virá o ataque final, não sabemos se sobreviveremos a ele. A única certeza que temos é a de que lutaremos até a última bala.
Eu gostaria que um dia meu filho pudesse ler meu diário, ler minhas últimas palavras, para que assim soubesse que o pai caiu, mas de forma honrada, lutando por algo em que acreditava.
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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008
Guerras Particulares - II
A cidade está partida. Os homens leais ao presidente já não passam de três mil, e dezenas morrem a cada hora. Os corpos espalhados pelas ruas já se amontoam, e criam uma cena de horror que faz Ruanda parecer uma história infantil. Perdemos algumas quadras e algumas de nossas linhas de tanques já foram desmanteladas. Em breve estaremos defendendo o palácio presidencial.
Seguindo ordens ou não, batalhar pela própria vida altera qualquer perspectiva. Fica muito simples ser cruel. Eu que temia tanto tirar a vida de alguém, hoje faço com a mesma facilidade com a qual respiro. Acredito que a iminência de receber um tiro na cabeça coloque minha moral em segundo plano.
Todas as dúvidas que eu tinha a respeito da minha paternidade se dissiparam frente à possibilidade de morrer.
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Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008
Guerras Particulares - I
Em breve o golpe final será desferido. A ininterrupta batalha pela capital já dura 17 dias de fogo cruzado e as forças rebeldes já ocupam todo o lado oeste da cidade. Temo que minhas tropas não estejam preparadas para aguentá-lo. Estamos em menor número, e já não recebemos mais ajuda internacional. Ironicamente cercados, por apenas um lado. Decidi relatar algumas memórias neste diário, pois pressinto que serão as últimas. Nossos tanques ainda mantém os amotinados a uma certa distância, e talvez sejam nossa única salvação.
Passei toda a minha vida militar executando tarefas burocráticas, quase sempre atrás de uma mesa de escritório, e essa é a primeira vez que me envolvo com a violência de uma guerra. Nos primeiros dias de batalha, tive muito medo do momento no qual teria de atirar em alguém, que chegou como um soco no estômago. É estranho pensar que acabei com a vida do filho de alguém, quando eu mesmo espero o nascimento do meu. Que direito posso eu ter a esperar um filho, quando tiro a vida dos de tantos.
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Rômulo Wehling
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22:03
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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008
Irresgatável
Na verdade durou mais do que algumas frações de segundo, mas se petrificou da mesma forma, irresgatável. Irresgatável. Irresgatável porque se não por meio do acaso, já não existem mais possibilidades de encontrá-la.
Depois de escrever acerca dos desencontros pelos quais tenho passado desde sua partida, decidi tentar, e cheguei, de fato, a acreditar que conseguiria. Recebi uma negativa bem concreta, que não deixou margem para dúvidas e me fez entrever que talvez o melhor a fazer, até por falta de opções, seja deixar a lembrança onde ela está, petrificada. Talvez fique assim até que eu a encontre, ou então, até que alguém tome seu lugar de musa e me resgate dessa eternidade.
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Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008
Dentes
— Olha, que bonitinha, parece um lobinho de pelúcia! Ela morde?
— Morde.
— Ah, jura? É brincadeira né? Uma cadelinha tão linda não pode morder de verdade...
— Não, é sério, ela morde mesmo. Principalmente quando está recebendo afagos. Eu vivo dizendo que ela é meio tã-tã, mas ninguém acredita. Na verdade nem eu acreditava no que dizia, até o dia em que ela me mordeu. Logo eu, o responsável pelo primeiro e único orgasmo da vida dela.
— Orgasmo, como assim menino, você bolinou a cachorra?
— Não, claro que não. Apenas deixei ela se fartar com a minha perna. No fim, ela já estava com a lingüinha caída do lado da boca, de tanto esforço que fez. Depois, quando terminou, se esparramou toda no chão e dormiu.
— Nossa, que legal hein. Tenho que admitir, você é bem excêntrico.
— Excêntrico, eu? Coitada, não chega nem a encostar as partes íntimas em mim, não custava nada deixar.
— Hum, está certo então, se você diz. Mas ela te mordeu?
— Mordeu, bem na hora em que eu estava fazendo carinho nela (mostro a mão dilacerada toda enfaixada).
— Ah, sei, er, certo, que legal então, acho que já vou indo, fica para a próxima, é, o carinho que eu ia fazer nela, tá bem? Tá certo, tchau.
— Claro claro, fique à vontade. Até mais.
Escrevi este texto todo com a mão esquerda, já que a outra está semi-inutilizada devido ao machucado que a minha cachorra me deu de presente, embrulhado nos pequeninos caninos dela.
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Rômulo Wehling
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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008
Desencontros
É claro que a possibilidade de que eu ainda venha a encontrá-la algum dia é quase nula, e a não ser que eu resolva procurá-la, tudo deverá continuar como está. Mas como quem escreve sou eu, e este texto segue para onde eu quiser, vou apenas elucidar melhor a gravidade da questão.
Partamos do pressuposto de que eu consiga encontrá-la. Existiria ainda a chance de ela sequer se lembrar de mim, e para completar, com os devaneios à parte, haveria também a (imensa) possibilidade de eu descobrir que ela é totalmente diferente do que eu imaginei, para pior, ou para melhor.
E agora?
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Domingo, 30 de Dezembro de 2007
Paliativo
Tê-la tão perto, e tão real, tão parecida e ao mesmo tempo tão diferente, traz de volta lembranças, palavras e olhares que inevitavelmente se enfraqueceriam e acabariam perdidos.
Perceber tantos traços daquele rosto altivo, que parecia sempre conter um sorriso implícito, na face de outra mulher é uma experiência no mínimo estranha, mas que de certa forma, ajuda a diminuir o tamanho de um oceano...
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Domingo, 23 de Dezembro de 2007
De Saramago Para Niemeyer
De um gênio, para outro.
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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007
A Moça
A sombra da árvore na qual descansava fazia um contraste inesperado em seu rosto, e apenas uma faixa de luz cobria seus olhos. Era impossível não notar a escuridão de seus cabelos, que caíam docemente pelos lados do rosto até quase tocar os ombros. De fato, ninguém deixava de notar. Todos que passavam se hipnotizavam com sua visão e alguns chegavam até a tropeçar com a boca aberta. Ela lembrava uma dessas atrizes de antigamente, que no esplendor de sua beleza parecem não notar os olhares que recebem.
Vestia um vestido branco, com bolinhas verdes, que pareciam ser uma promessa das sinuosidades e relevos que aquele corpo possuía enquanto realçadas pelo verde forte do gramado.
Seus lábios cor-de-rosa se moviam bem devagar, como se cantasse apenas para si, de forma que ficava ainda maior a curiosidade dos passantes.
Nunca se soube o que esperava ali debaixo daquela árvore, mas o que quer que fosse, perdeu a graça. Ela se levantou, e se já atraía atenção sentada olhando para o céu, com seu andar elegante de corça até o trânsito parou para olhar.
Foi-se, com o olhar perdido por não ter achado sua nuvem de limão.
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Sábado, 8 de Dezembro de 2007
Inocência Divina
Depois disso, acabaria com qualquer tipo de manifestação cultural, religiosa ou social, com os limites morais e qualquer coisa mais que limitasse a profundidade infinita que possuímos dentro de nós.
Ao terminar de usar minha borracha divina, sobrariam apenas os homens, sozinhos no mundo e livres para criar e pensar.
Com minha onisciência inerente a qualquer deus, veria então os homens, mesmo livres, fazendo e recriando tudo da mesma forma. Tomando as mesmas decisões erradas.
Assim eu entenderia, que o homem não tem a capacidade de se gerir coletiva ou individualmente, que precisa de algo que o controle, algo em que acreditar para não ter de pensar na dor que é viver.
Veria também que toda a baixeza e mesquinharia que é espalhada pelo mundo se faz necessária, para que do meio dela, possam nascer as virtudes grandiosas que são empunhadas por alguns indivíduos especiais que de vez em quando aparecem por aí.
Finalmente, me daria conta de que não adianta apagar as coisas que regem o homem e dar-lhe a liberdade. O que de fato adiantaria, seria apagar os próprios homens, deixando um ou outro escolhido, para que esses pudessem refazer a humanidade. Talvez até criar uma espécie nova.
O homem é o ser perfeito para se lutar por liberdade, mas é o pior de todos quando a questão é aproveitar as que são conquistadas.
Numa situação hipotética, onde o universo fosse totalmente explorado e centenas de planetas com vida inteligente já tivessem sido descobertos, nossa existência poderia talvez ganhar um significado concreto. Seríamos mercenários, contratados para lutar pela liberdade de outros planetas oprimidos por raças mais fortes. Nós faríamos o que sabemos de melhor, e os contratantes poderiam aproveitar sua liberdade da forma que melhor lhes apetecesse depois que a conquistássemos.
Não quis perder muito tempo pensando nessa possibilidade de ser Deus, mas acho que seria mais ou menos assim minha experiência como Ele, bem curta.
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Rômulo Wehling
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Terça-feira, 27 de Novembro de 2007
A Estranha Perfeita
De início, o que me pareceu estranho foi o fato de que não conseguia tirar os olhos dela, mesmo sem ter notado qualquer tipo de beleza extraordinária. Quinze minutos depois, eu tinha a certeza de que já não havia nada de mais belo em todo o mundo, e a culpa de não ter notado tamanha beleza estava no meu problema de vista.
Eu não sou exatamente um especialista em esconder as coisas que sinto; com isso, é claro que eventualmente ela acabou percebendo o tanto que eu a observava. Isso me obrigou a apressar o processo de criação de coragem, antes que a brincadeira de trocar olhares perdesse a graça e eu ficasse a ver navios.
Tudo teria seguido bem, se ela não tivesse voltado para Portugal no fim de semana. (Esqueci de mencionar que ela é portuguesa). Quando a ouvi falando pela primeira vez, me lembro de ter pensado que dali, não a deixaria mais escapar de jeito algum.
Acabei ficando pelo Brasil mesmo, sem saber o que fazer com a saudade que vinha me atormentar de vez em quando. Resolvi construir um puxadinho no ponto mais afastado de mim e toda vez que a lembrança vem, em vez de expulsá-la a tapas e pontapés, deixo-a entrar e indico logo seu referido cômodo.
Amores à primeira vista nos levam por caminhos muito estranhos.
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Rômulo Wehling
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Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007
Sábado, 24 de Novembro de 2007
À la Mendes Campos
Fazer barba ouvindo música clássica; a bomba de creme e o capuccino do forte copacabana; sotaque de portuguesas, mineiras e gaúchas; cafuné de avó, escrever em máquina de escrever; tiro ao alvo; atirar com arco-e-flecha; arremessar facas; cachorro que faz festa pra quem chega; andar de avião; andar de submarino; andar em navio de guerra; andar em tanque de guerra; pular de pára-quedas; brisa da madrugada; água de filtro de barro; andar de cavalo; cantar no chuveiro; jogar videogame; jogar sinuca; jogar taco; remar na lagoa de madrugada; cavar buracos com pá e carrinho de mão; sorvete com conversa do motherfucker; fotos antigas de família; tentar adivinhar o cavalo vencedor do páreo; cinema na última sessão; demolir paredes; achar dinheiro; pisar descalço em grama molhada; banho de mangueira; escalar árvores; balanço com corda comprida; aprender malabarismo; dar autógrafos; chapéus que escondem a careca; assistir máquina de lavar batendo roupa; deslizar no sabão; colocar roupas dos pais quando ainda somos crianças; viagens inesperadas; viagens ansiosamente esperadas; jogar truco com os velhinhos da praça; café da manhã de hotel; vitória em final de campeonato no maracanã; sombra de árvore; pescar com a linha na mão; cheiro de chuva no mato; mudar para apartamento maior; amigos que nos lembram de histórias divertidas; matar aula; passear por livrarias; caixa de ferramentas; descobrir uma frase que nos revele; se arrumar para uma grande festa de gala; chegar em casa e colocar o pijama depois da grande festa de gala; imaginar o que faria se ganhasse na loteria; a cena do tango em "perfume de mulher"; tirar passaporte de outro país; festa à fantasia; passar de faixa em arte marcial; primeiro beijo, carinho e abraço na nova namorada; ter uma namorada; jogar botão; usar máscara de oxigênio; ligar a lanterna quando acaba a luz; saber ler partituras; montar miniaturas de lego; conseguir fazer flexão de braços com um braço só; ver a vizinha trocando de roupa pelo binóculo; apresentação da banda predileta; menina bonita com vestido de bolinha; ver francesas usando sobretudo, cachecol e boina em uma fria noite parisiense; encontrar o objeto procurado no escuro.
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Rômulo Wehling
às
21:00
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Terça-feira, 20 de Novembro de 2007
Aviso
No meu quarto mando eu.
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Rômulo Wehling
às
22:28
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Coincidências
That I shall never look upon thee more, (...)
Of the wide world I stand alone, and think." - John Keats.
"Quando sinto que nunca mais hei de te ver,
Formosa criatura de um momento ideal! (...)
Do vasto mundo eu fico só, a meditar." John Keats, na tradução.
Chega a ser quase incrível, como as vezes certas coisas que lemos condizem perfeitamente com momentos pelos quais passamos em nossas vidas. Ainda escreverei mais sobre o assunto.
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Rômulo Wehling
às
15:28
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Inspiração
Gostaria de ter tal brilhantismo, mas fico apenas no perceber um lado da realidade até então despercebido. Daí a escrever algo que tenha algum valor já é uma outra história. Vejamos onde isso vai dar.
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Rômulo Wehling
às
15:13
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